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Desde o começo de 2022, investidores estavam lançando olhares curiosos aos movimentos econômicos do Brasil. O real, na contramão do desempenho dos anos anteriores – nos últimos cinco, registrou desvalorização de 40% em relação ao dólar – foi alçado ao posto de alternativa vantajosa, sintonizado com as crescentes exportações de commodities e taxas de juros, alimentando um conveniente carry trade.
Carry trade é a modalidade de operação de renda variável em que o especulador tenta se beneficiar por meio de diferenças entre taxas de juros. Em poucas palavras, lucrar com dinheiro emprestado: toma-se uma quantia a juros baixos (por exemplo, o dólar, o euro, o iene) para depois aplicar este mesmo capital em países de juros mais altos (como o Brasil). Ao vencerem os títulos, o investidor converte os recursos de volta e paga o empréstimo, este é um mecanismo interessante de negociação de capital internacional que acaba recompensando as moedas com projeções mais animadoras.
Este tipo de operação é responsável por uma intensa e volumosa movimentação financeira pelo mundo, com particular destaque para os fundos soberanos e hedge funds. Observe que, no fim do dia, a prática leva a uma apreciação de moeda local, uma vez que aumenta tanto a oferta de dólares quanto a demanda pelo dinheiro local.
Não é difícil imaginar que o carry trade se volta para nações emergentes, afinal, são eles que tendem a elevar os juros de forma mais agressiva para seu próprio financiamento – riscos maiores necessitam também de maior remuneração de títulos. É aí que o Brasil entra no jogo, pois a memória inflacionária do nosso país, que comumente sobe taxas ao menor sinal de aumento geral dos preços, também nos dá sensibilidade para lidar com ele. E, por mais contraditório que possa parecer, é um diferencial competitivo bastante promissor na comparação com os demais países-alvo. A situação em 2022 ilustra bem esse ponto. Até abril, nenhum outro país do mundo elevou os juros tanto quanto o Brasil, com exceção da Rússia.
Com este background em mente, o time de especialistas do Grupo Travelex Confidence desenvolveu um estudo, cujo objetivo era entender a relação entre os juros nominais e reais em economias emergentes e o impacto sobre o câmbio. Em tese, esperava-se que o direcionamento de capital fosse proporcional ao risco e aos juros de remuneração. Conforme o risco aumenta em virtude de algum tipo de instabilidade, independentemente da sua origem, o retorno sobre o investimento deve crescer para que haja alguma atração de recursos.
Vamos à análise: voltando um pouco no tempo, o Banco Central do Brasil foi um dos primeiros a reduzir os juros, a fim de conter as consequências de uma desaceleração econômica. Contudo, quando a inflação bateu à porta, o BC agiu mais rapidamente e também capitaneou o ciclo de aperto monetário, com aumentos graduais na taxa básica. A movimentação em outros emergentes foi parecida, mas nenhuma delas a fez com tamanha severidade – a Selic foi de 2% a 13,75%. Agilidade e agressividade foram cruciais para fazer os olhos dos investidores brilharem.
Para dar uma ideia mais concreta, façamos comparações sobre o comportamento das taxas em outros emergentes. A Rússia recuou de 6,25% para 4,25% ao ano; o México, de 7,25% para 4,25%; na Turquia houve aumento de 11,25% para 17% ao ano. A partir de fevereiro de 2021, os juros voltaram a subir – os efeitos da crise começavam a diminuir e a inflação já se tornava realidade.
É válido levar em conta o comportamento do banco central americano, o Federal Reserve FED, no mesmo período. No início da pandemia, os juros nos Estados Unidos foram reduzidos de 0 a 0,25% ao ano. Em março de 2022, com a escalada inflacionária, tratou de mexer na situação. À essa altura, o Brasil já praticava taxas mais altas há quase um ano, o que nos deu uma vantagem prática de Carry Trade.
De fevereiro de 2021 a julho de 2022, apenas dois países chegaram a ter juros superiores aos do Brasil – a Rússia e a Turquia. O México, outro emergente que poderia ter apelo junto aos investidores, não elevou os juros na mesma toada que o BC. Mais uma vez, vantagem para o Brasil.
É possível notar que o dólar por aqui saiu de R$5,60 em fevereiro de 2021 para R$ 5,01 em agosto de 2022. O desempenho, logicamente, não se dá exclusivamente pelo aperto monetário no país. No período, tivemos um forte impacto da alta em commodities, um dólar chegou a valer R$ 4,73, em maio deste ano.
Para concluir, conseguimos observar que o câmbio, apesar de não ser totalmente definido pela taxa de juros – dados os diferentes momentos na economia que envolvem o apetite ou a aversão ao risco pelo mercado – é usado como instrumento para apreciação ou depreciação da moeda nacional, o que, de fato, indica o impacto de um aumento de juros no câmbio. A ver o que o último trimestre nos reserva. No que depender do Carry Trade, o Brasil segue um passo à frente.
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