Morri, e agora?

Pode parecer uma pergunta estranha para uma coluna de investimentos. Não é.

É a pergunta que sua família vai precisar responder – com ou sem preparo – no pior momento possível. E a diferença entre ter planejado e não ter planejado não é emocional. É financeira. É meses, às vezes anos, sem conseguir acessar o que você deixou.

O que acontece nas primeiras 72 horas

Você morre. Sua família está em luto. E, ao mesmo tempo, precisa descobrir onde você investia, quais contas existem, se há seguro de vida, onde está a escritura do apartamento, quem é seu advogado.

Sem essas informações organizadas, o processo trava antes mesmo de começar. Contas bancárias ficam bloqueadas. Investimentos em corretoras que a família não conhece ficam parados. Imóveis sem documentação atualizada viram problema jurídico. E o inventário – mesmo o mais simples, sem disputa entre herdeiros – leva em média de 12 a 24 meses na via judicial.

Nesse período, sua família paga as contas do dia a dia com o próprio bolso.

O que drena o patrimônio no processo

O inventário tem custo. Entre ITCMD, honorários advocatícios e custas cartorárias, o processo consome facilmente entre 10% e 20% do patrimônio transmitido – dependendo do estado e da complexidade. Em 2025, o cenário piorou: vários estados já praticam alíquotas progressivas de ITCMD de até 20%, e o PLP 108/24, aprovado no Senado em setembro e em tramitação na Câmara, amplia a base de cálculo e regulamenta a tributação de bens no exterior.

Quem planejar antecipado paga menos. Quem deixar para depois paga o que o fisco decidir cobrar.

A pastinha da tristeza

É o nome que uso com meus clientes para o documento mais simples e mais ignorado do planejamento financeiro: o guia de acesso ao seu patrimônio, guardado em local seguro e conhecido pela família.

Não substitui testamento nem holding. Mas é o que garante que sua família não ficará paralisada nas primeiras semanas.

Trinta minutos. É o tempo que leva para montar esse documento. É menos do que você gasta por dia em qualquer rede social.  

O que protege antes do inventário

Alguns instrumentos transferem patrimônio sem passar pelo inventário – e por isso garantem liquidez imediata:

VGBL: não entra no inventário e vai direto para os beneficiários indicados. Por decisão vinculante do STF (Tema 1.214), o ITCMD não incide sobre esses valores – mas alguns estados ainda resistem na cobrança. Vale confirmar a prática do seu estado com assessoria jurídica.

Seguro de vida: enquanto o inventário tramita, o seguro paga. Subutilizado por quem já tem patrimônio – deveria ser o contrário.

Testamento: define quem recebe o quê, reduz ambiguidade e evita conflito. Ainda pouco usado no Brasil, mas o mais direto instrumento de intenção que existe.

Holding familiar: para patrimônios acima de R$ 2 milhões, transfere quotas em vez de bens – simplifica a sucessão e pode reduzir a carga tributária de forma significativa.

A pergunta que fica

Na minha prática como planejadora financeira e consultora independente de investimentos, raramente encontro clientes com esse tipo de cuidado. 

A pastinha da tristeza é o começo. Não o fim.

Se você morresse hoje, sua família saberia onde está cada centavo que você investiu – e o que fazer com ele? Se a resposta hesitou, você já sabe qual é a próxima reunião que precisa marcar.

Últimos comentários

A pensar que um dos maiores medos do investidor: é da sua família não está preparada para cuidar de seus bens. Vale a reflexão.
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Muuuito pertinente! Agora mesmo um cliente deixou um lixo de carteira recomendada por MONTE BRAVO/ XP que oa herdeiros terãoacesso em 10anos em razao da “falta de liquidez”!!!
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