Por Ayla Jean Yackley
ISTAMBUL (Reuters) - Um século depois dos seus antepassados fugirem dos massacres na Turquia e se estabelecerem na Armênia, Alla fez o caminho inverso, esperando conseguir a cidadania turca depois de deixar sua empobrecida terra natal, a Armênia.
Ela trabalha como babá na Turquia mas teme ser deportada, uma de milhares de trabalhadores sem documentação que vieram da ex-república soviética e que se sentem reféns da disputa diplomática entre os dois países que se estende há décadas.
O conflito remonta às mortes de até 1,5 milhões de armênios cristãos pelas mãos de turcos otomanos muçulmanos, que fizeram aniversário neste domingo. As tensões entre a Armênia e sua vizinha Azerbaijão, que é apoiada pela Turquia, estão especialmente amplificadas neste ano.
"Nós vivemos com o medo de que eles (autoridades turcas) nos retirem daqui caso alguma coisa ocorra", disse Alla, que pediu para que seu nome completo não fosse divulgado devido ao seu status ilegal na Turquia.
"Quando chego em casa do trabalho, agradeço a Deus mil vezes por nada ter acontecido", disse. "Se eu conseguir a cidadania, então não ficarei mais com medo."
Estimativas são de que existem entre 10 mil a 30 mil armênios no país. Uma passagem de ônibus de Ierevan a Istambul com a promessa de vida melhor custa o equivalente a cerca de 50 dólares.
Os números são ofuscados pelos 3 milhões de sírios e centenas de milhares de iraquianos que deixaram seus países por conta da guerra. Mas os imigrantes armênios se sentem vulneráveis e suscetíveis a mudanças políticas.
A Armênia, apoiada por várias nações e estudiosos do Ocidente, alega que o massacre de 1915 foi um genocídio. A Turquia aceita que armênios foram mortos durante a Primeira Guerra Mundial, mas rejeita a declaração de que se trata de um genocídio.
A animosidade entre os vizinhos, cuja fronteira é fechada, aumentou neste mês com os confrontos entre o Azerbaijão, país muçulmano, e os separatistas cristãos apoiados pela Armênia em Nagorno-Karaback, uma região dentro do Azerbaijão que é controlada por pessoas de etnia armênia.
O presidente turco, Tayyip Erdogan, afirmou que a morte de cidadãos do Azerbaijão "queimou nossas almas" e culpou a Armênia pelos conflitos, os piores desde um cessar-fogo em 1994 em Nagorno-Kabarack, após uma guerra que matou milhares de pessoas de cada lado.
Os turcos foram às redes sociais chamar os armênios de "assassinos" e proclamar Nagorno-Karabakh como "território turco".