Cook vs. Trump: perspectivas do litígio e o que pode significar para a política do Fed
É sabido que, no Brasil, o uso da terra está associado a grande parte das emissões de gases de efeito estufa (46% em 2023, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG)). Por isso, é necessário o olhar para a agricultura e a pecuária, visando estratégias que promovam práticas mais sustentáveis. Essa transição, para que seja justa, deve levar em conta uma parcela significativa para a produção brasileira: os agricultores familiares, que representam 77% do total das propriedades rurais no país.
De acordo com o Banco Mundial, esses produtores são responsáveis pelo fornecimento de grande parte dos alimentos que fazem parte das mesas dos brasileiros: 87% da mandioca, 70% do feijão, 34% do arroz e 21% da produção de trigo, além de produzirem 60% do leite e 50% das aves. No Cerrado, especificamente, a relevância também é grande, e os produtos são, cada vez mais, voltados para o abastecimento local e programas de merenda escolar.
Grande parte dos agricultores familiares está inserida em assentamentos rurais, onde ainda existem demandas de regularização ambiental. Isso gera uma série de obstáculos, como a ausência de Cadastro Ambiental Rural (CAR), o que dificulta o acesso às linhas de crédito e a políticas públicas. Além disso, a configuração de reservas legais conjuntas e a ausência de regularização fundiária consolidada em algumas regiões aumentam a vulnerabilidade desses produtores, especialmente os de menor renda.
Outro desafio é: poucos pequenos agricultores do Centro-Oeste recebem assistência técnica, e, quando têm, costuma ser genérica ou pouco adaptada à realidade da agricultura familiar, sem foco em práticas sustentáveis e de fácil adoção.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovam que a abrangência da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) no Brasil, especialmente para a agricultura familiar, é insuficiente e marcada por disparidades regionais. Para se ter uma ideia, em 2006, 78% dos estabelecimentos rurais brasileiros declararam não ter recebido nenhum tipo de orientação técnica, com apenas 13% relatando orientação ocasional. Essa tendência se manteve em 2017, com 79,8% dos estabelecimentos declarando não ter recebido assistência técnica.
Além da baixa cobertura de ATER, as diferenças regionais são grandes, com 50% dos estabelecimentos no Sul utilizando assistência técnica, 41,5% no Sudeste e 32,0% no Centro-Oeste, contra 14,6% no Nordeste e 14,5% no Norte. Há também diferença entre o perfil dos produtores que têm acesso à assistência técnica. Entre os agricultores familiares, apenas 16,7% a utilizam, contra 43,5% entre os agricultores de grande porte. Esse cenário é preocupante, sobretudo, para estados das regiões Norte e Nordeste, que concentram mais de 50% dos estabelecimentos agropecuários de agricultura familiar do país, mas também os maiores percentuais daqueles sem orientação técnica. Entre os agricultores familiares, apenas 7,3% tiveram acesso à ATER na região Nordeste, contra 47,2% na região Sul.
Ampliar e qualificar a capacitação no campo pode contribuir também para enfrentar um outro desafio central: o envelhecimento da população rural e a ausência de sucessão familiar. Muitos jovens não enxergam futuro no campo, sobretudo diante das dificuldades econômicas. No entanto, ao terem acesso a práticas mais modernas de manejo animal e agropecuária regenerativa — capazes, inclusive, de triplicar a rentabilidade da atividade — esse cenário poderia mudar. A conexão com novas oportunidades pode motivar as novas gerações a permanecerem e dar continuidade ao trabalho no campo.
Mas a transição para uma agricultura mais sustentável no Cerrado não depende, necessariamente, de tecnologias caras ou grandes investimentos. Muitas das soluções mais eficazes envolvem mudanças de manejo que respeitam o ciclo da natureza e aumentam a resiliência do sistema produtivo. Um exemplo claro é a rotação correta de pastagens: ainda hoje, muitos produtores acreditam que o ideal é deixar o gado consumir o pasto até o chão, prática que esgota o solo e que dificulta que vegetação volte a crescer. Ensinar que o manejo deve considerar o equilíbrio entre solo, planta e animal é fundamental para manter a fertilidade natural e reduzir a dependência de insumos externos. Outras técnicas que podem ser usadas são o sistema plantio direto e o uso de plantas de cobertura. que podem significar um ponto de virada para essas famílias.
Além do solo, a qualidade da água é outro eixo crítico da sustentabilidade na agricultura familiar do Cerrado. Trazer a água limpa para o bebedouro dos animais, ao invés de deixá-los beber diretamente em nascentes ou rios, preserva as Áreas de Preservação Permanente (APPs), melhora a saúde do rebanho, engorda mais rápido os animais e reduz a contaminação dos recursos hídricos. Outro exemplo seria os terraços em curvas de nível, que conteria os sedimentos de chegarem ao rio e contaminamos e assoreá-los. Técnicas simples como essa, junto ao manejo adequado de pastagens e culturas, têm potencial de transformar profundamente a realidade de pequenas propriedades.
Ao longo dos últimos sete anos, a TNC Brasil vem apoiando produtores e produtoras rurais do Cerrado na transição para uma agricultura e pecuária regenerativa no Vale do Araguaia (MT). Até 2030, o objetivo é melhorar a gestão territorial e evitar o desmatamento de mais de 1 milhão de hectares de vegetação nativa, que serão mantidos como estoques de carbono e corredores ecológicos de biodiversidade, através da melhoria de pastagens degradadas tanto para agricultura como para pecuária, promovendo a preservação dos excedentes de vegetação. Vale destacar que a degradação do solo emite altos índices de carbono, fazendo com que a regeneração seja, também, uma atividade de mitigação das mudanças climáticas, além de proporcionar desenvolvimento econômico e diversificação dos meios de subsistência, impactando pelo menos 195.000 pessoas.
A mudança para uma agropecuária mais produtiva, sustentável e resiliente passa, antes de tudo, pelo conhecimento de como e por que fazer. O grande desafio, portanto, não está na ausência de soluções, mas sim na disseminação do conhecimento e no fortalecimento da assistência técnica especializada, capaz de conectar saberes científicos às práticas do cotidiano rural. Este sim é um grande custo que tem que ser solucionado assistência técnica a pequenos produtores com qualidade, sendo um mínimo de 3 anos por produtor para surtir efeito e transformações, e ter técnicas completas implementadas, além de gestão da propriedade.