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Mais de 1 milhão de pessoas protestam contra governo Dilma pelo país

Publicado 15.03.2015, 20:54
© Reuters. Manifestação contra o governo da presidente Dilma Rousseff na Avenida Paulista, em São Paulo

Por Pedro Fonseca e Caroline Stauffer e Maria Carolina Marcello

RIO DE JANEIRO/SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - Cerca de um milhão de pessoas protestaram na cidade de São Paulo neste domingo contra o governo da presidente Dilma Rousseff e a corrupção, de acordo com a polícia, em meio à fraqueza da economia e inflação elevada, na maior de uma série de manifestações populares em diversas cidades de todo Brasil.

Os protestos tiveram um caráter pacífico, ao contrário dos ocorridos em junho de 2013, ocasião em que foram registrados vandalismo e confrontos entre policiais e manifestantes. Apesar disso, a polícia do Distrito Federal lançou bombas de efeito moral para dispersar um pequeno grupo de manifestantes que lançaram pedras na direção de policias na Esplanada dos Ministérios após o final da manifestação em Brasília. Ao menos uma pessoa ficou ferida.

Vestidos com as cores da bandeira brasileira, os manifestantes foram às ruas de várias cidades de todas as regiões do país para reclamar principalmente da corrupção, em meio ao escândalo bilionário na Petrobras investigado pela operação Lava Jato, e problemas econômicos enfrentados pelo Brasil.

"O povo está se sentindo traído", disse na capital paulista o publicitário Diogo Ortiz, de 32 anos, referindo-se à Petrobras como "vergonha nacional e internacional".

"Eu quero impeachment (de Dilma) mesmo", acrescentou, mesmo admitindo que as chances são pequenas e que este domingo pode se tornar um evento isolado sem resultados efetivos.

Segundo estimativa da Polícia Militar, 1 milhão de pessoas participaram da manifestação na Paulista e adjacências. No entanto, levantamento do instituto Datafolha publicado no site do jornal Folha de S.Paulo colocou o total de manifestantes no local em 210 mil pessoas.

Devido aos protestos, a presidente Dilma pediu a alguns de seus ministros que ficassem em Brasília neste domingo para acompanhar as manifestações, e realizou uma reunião no Palácio da Alvorada para avaliar as acontecimentos.

O ministro Miguel Rosseto, da Secretaria-Geral da Presidência, escolhido porta-voz do encontro ao lado do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que as pessoas que foram às ruas neste domingo são aquelas que não votaram em Dilma na eleição presidencial do ano passado.

"As manifestações ocorridas hoje são manifestações onde majoritariamente participaram setores da sociedade críticos ao governo", disse Rosseto em entrevista coletiva. "Seguramente, majoritariamente, eleitores que não votaram na presidente Dilma Rousseff".

Cardozo afirmou que o governo está aberto ao diálogo com todos os setores da sociedade, inclusive a oposição, e que a presidente vai apresentar nos próximos dias medidas de combate à corrupção. Reiterou também a defesa do governo por uma reforma política "lastreada no ouvir da sociedade", que tenha como ponto principal o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais e partidos políticos.

Durante o pronunciamento dos ministros, que foi transmitido pela TV, houve panelaço em diversas capitais, como Brasília, Rio e São Paulo, assim como ocorreu durante pronunciamento de Dilma na TV no domingo passado.

Sempre que questionada sobre as manifestações populares, Dilma tem repetido que fazem parte da democracia. Em mensagem publicada no Facebook na tarde do sábado, a presidente disse valorizar o fato de que as pessoas podem se manifestar livremente. "Sou a favor da democracia. Espero que amanhã (domingo) o Brasil prove a sua maturidade democrática".

PEDIDOS DE IMPEACHMENT

As manifestações deste domingo foram convocadas pelas redes sociais. A maioria dos grupos organizadores defende o impeachment da presidente, usando como argumentos uma suposta corrupção no governo do PT, o escândalo da Petrobras e os altos custos com impostos e tarifas, entre outras reclamações.

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), que foi derrotado por Dilma nas eleições presidenciais de outubro passado, disse no Facebook que "esse 15 de março vai ficar lembrado para sempre como o Dia da Democracia".

"O dia em que os brasileiros se vestiram de verde e amarelo e foram para as ruas se reencontrar com as suas virtudes, com os seus valores, e também com os seus sonhos", escreveu Aécio, que decidiu não ir para as ruas neste domingo.

Em 2013, no dia de maior mobilização nas manifestações um pouco antes da Copa das Confederações, cerca de um milhão de pessoas foram às ruas de cidades do país. Naquela ocasião, os protestos começaram contra o reajuste das tarifas de transporte público e acabaram gerando uma pauta de reivindicações bastante difusa, passando por melhoria de oferta de educação e saúde pelo governo e combate à corrupção, entre outras demandas.

MILHARES EM VÁRIAS CIDADES

A chuva que caiu em alguns pontos da Avenida Paulista não foi suficiente para dispersar as pessoas, muitas delas munidas de cartazes com dizeres contra a presidente e contra seu partido, o PT.

Apesar de o protesto ter sido pacífico, a polícia informou que deteve 20 pessoas nos arredores da Avenida Paulista que estavam carregando fogos de artifício, pistola de choque e gás pimenta durante a manifestação.

Em Brasília, cerca de 45 mil pessoas se concentraram na Esplanada dos Ministérios e em frente ao Congresso Nacional, que chegou a ter seu espelho d´água invadido por alguns manifestantes, segundo informações da PM, que mobilizou um efetivo de 1,6 mil homens neste domingo.

Na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, mais de 15 mil pessoas se aglomeraram para protestar, segundo a PM, enquanto organizadores estimaram o número de manifestantes em 30 mil.

"O brasileiro tem que se manifestar realmente e não pode se calar diante desses escândalos e roubalheira que vemos no Brasil", disse a comerciária Márcia Santos, que vestia uma camisa verde-amarela. Muitos manifestantes no Rio carregavam faixas contra o governo e o PT.

Em Porto Alegre foram cerca de 100 mil pessoas no protesto, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, e Curitiba reuniu mais de 80 mil manifestantes, segundo a polícia.

De acordo com a polícia, cerca de 25 mil pessoas participaram do protesto em Belo Horizonte; 5 mil pessoas compareceram à manifestação em Salvador; 3,5 mil pessoas protestaram no Recife, 10 mil em Fortaleza e 5 mil em Manaus, entre outras localidades. Cidades do interior do Estado de São Paulo, como Campinas, também reuniram milhares de manifestantes mais cedo, de acordo com a polícia.

Houve manifestações de brasileiros também no exterior, em cidades como Buenos Aires, Londres e Nova York.

O protesto contra o governo acontece dois dias após sindicatos de petroleiros e movimentos sociais realizarem manifestações a favor da Petrobras e da presidente Dilma, mas em escala bastante reduzida quando comparada ao movimento deste domingo.

Os organizadores dos protestos deste domingo afirmam que os movimentos não estão ligados a partidos políticos, mas legendas de oposição declararam adesão às manifestações.

O próprio Aécio convocou a militância tucana para ir às ruas protestar, ressalvando, porém, que o impeachment não faz parte da agenda do partido.

CENÁRIO COMPLICADO

O governo de Dilma enfrenta um quadro de inflação cada vez mais alta, atividade econômica fraca, piora no mercado de trabalho e turbulência política com a base governista.

A esse cenário, soma-se o maior escândalo de corrupção da história do país envolvendo a Petrobras, ao qual estão ligados ex-funcionários, executivos de empreiteiras e políticos.

Pesquisa do instituto Datafolha em fevereiro mostrou que a avaliação ótima/boa da presidente despencou de 42 por cento em dezembro para 23 por cento em fevereiro, enquanto aqueles que a consideram ruim/péssima passaram de 24 por cento para 44 por cento.

© Reuters. Manifestação contra o governo da presidente Dilma Rousseff na Avenida Paulista, em São Paulo

Com as manifestações deste domingo, Dilma se junta a outros dois presidentes que enfrentaram protestos populares no período da redemocratização: Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.

Collor acabou sofrendo o impeachment, enquanto Fernando Henrique reverteu em parte a baixa popularidade do início de seu segundo mandato, superando inclusive uma campanha com ampla participação de petistas que tinha o slogan "Fora FHC".

(Reportagem de Maria Carolina Marcello e Leonardo Goy, em Brasília; Pedro Fonseca, Rodrigo Viga Gaier e Caio Saad, no Rio de Janeiro; e Caroline Stauffer, em São Paulo)

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