Olá pessoal! Com a queda recente da moeda estadunidense, muitas pessoas andam me fazendo a pergunta acima. Resolvi, então, escrever a coluna de hoje para dar uma resposta fidedigna ao que penso.
Antes de mais nada, e isso pode frustrar muitas pessoas, não sabemos o que exatamente acontecerá no futuro. Deixo claro que eu simplesmente não sei dizer se o dólar irá cair mais nas próximas semanas, se irá inverter a mão ou se ficará estável. Qualquer um desses três cenários é absolutamente possível, ainda mais em um contexto atual de muita incerteza sob o qual o nosso país vive. Na verdade, ninguém sabe o que acontecerá. E se algum guru afirmar que “sabe”, ele pode até acertar, mas terá no máximo feito uma grande aposta! O problema é que há guru para tudo e fatalmente alguns acabarão acertando aleatoriamente (leia o excelente livro “O Andar do Bêbado – Como o Acaso Determina Nossas Vidas”, de Leonard Mlodinow).
Não sabemos o que acontecerá precisamente porque há muitas variáveis que simplesmente não controlamos e impactarão o preço do dólar. Essas incertezas serão reveladas apenas no futuro. A verdade é que podemos, no máximo, especular. Mas, então, como a ciência pode ajudar nesse caso?
A ciência nos auxilia a lidar com a incerteza, provendo ferramentas que nos ajudam a entender melhor o que acontece e o que pode acontecer. Em outras palavras, a ciência não consegue, muito menos tem a pretensão de controlar o futuro, mas sim de compreendê-lo melhor, bem como suas incertezas. As ferramentas que utilizamos com esse propósito costumamos chamar de modelos preditivos.
Um modelo preditivo olha o passado para buscar melhor compreensão do futuro. E qualquer modelo preditivo estará baseado em premissas que sempre terão uma boa dose de incerteza. E mesmo quando um modelo estiver baseado em premissas sólidas e cabíveis, ele não terá o poder de zerar sua margem de erro. Uma coisa é a expectativa do que acontecerá. Outra é o nível de incerteza ou margem de erro que essa expectativa naturalmente incorre. A boa compreensão dessas duas respostas nos ajuda a tomar as melhores decisões possíveis.
Tendo em vista o que expliquei, infelizmente não consigo responder com um sim ou com um não a pergunta: “devo comprar dólares agora”? Mas, isso não quer dizer que a ciência seja impotente. Como disse antes, a ciência nos ensina a lidar melhor com a incerteza. Lembro, nesse exato momento, da famosa frase do estatístico britânico George Box: “essencialmente, todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”. Estão errados porque conviverão eternamente com o erro, mas são úteis por nos ajudarem a entender e principalmente a lidar com a incerteza. É com base nisso que sugiro duas estratégias para dois contextos diferentes a seguir.
CASO 1 - PRETENDO (OU VOU) FAZER UMA VIAGEM AO EXTERIOR: É HORA DE COMPRAR DÓLARES AGORA OU ESPERO CAIR UM POUCO MAIS?
Primeiramente, é fundamental ter uma estratégia para comprar os dólares necessários para sua viagem. Não ter estratégia e ficar “esperando pelo melhor momento” é exageradamente arriscado. Caso você ainda não possua uma estratégia, sugiro iniciar hoje. E minha sugestão é comprar um pouco todos os meses. E, sim, se conseguir, aumente a compra nos momentos de baixa da moeda (o que seria o caso agora). Caso você possa e se sinta mais confortável, faça isso semanalmente.
Vamos a um exemplo: suponha que para custear a sua viagem, você precise comprar 50 dólares toda semana ou qualquer outra quantia adequada à sua viagem. Nas semanas de queda da moeda, esforce-se e compre mais dólares (quanto mais tiver caído, mais você tentará comprar). Em semanas de forte alta, compre um pouco menos, mas sempre equilibrando o que você ainda precisa comprar com o tempo que ainda tem para tal.
Essa estratégia não garantirá que você sempre comprará dólares nas mínimas de mercado, até porque ninguém conseguirá oferecer esse tipo de garantia. Mas, ao menos, reduzirá o seu risco e fará com que você, ao final do planejamento, tenha comprado dólares numa taxa média de mercado, com um ligeiro viés de baixa devido à estratégia de comprar mais dólares na baixa e menos na alta. Para isso, é preciso entender que a moeda tem seu sobe-e-desce imprevisível. A alegria de “acertar” e comprar todo o orçamento da sua viagem numa cotação baixa não compensa a frustração de “errar” e comprometer sua viagem por conta de uma taxa altíssima disponível às vésperas da mesma. Comprar dólares aos poucos reduz essa incerteza, evita arrependimentos e traz noites mais tranquilas de sono.
CASO 2 - SOU INVESTIDOR: INVISTO AQUI NO BRASIL EM REAIS OU PROCURO INVESTIMENTOS LASTREADOS EM DÓLAR?
Caso seu objetivo seja investir no longo prazo, há duas possibilidades. A primeira é realmente se aprofundar no assunto, estudar modelos econômicos preditivos e desenvolver o seu próprio a fim de alavancar seus investimentos. Isso é possível, mas demanda conhecimento, estudo específico e, claro, assumir o risco de o modelo errar.
Caso você faça parte da maioria e não se enquadre no seleto grupo acima, eu acho bastante arriscado ficar tentando acertar o que acontecerá. Isso porque diversos vieses e heurísticas jogarão contra, a começar pelo viés do excesso de confiança, considerado por muitos como o “pai de todos os vieses”. E fatalmente passará pelo “viés de confirmação”, que consiste na busca efetiva de informações e roteiros que confirmem nossas crenças e hipóteses, mesmo havendo outras informações e roteiros que vão de encontro ao que achamos que acontecerá.
Bom, mas, então, o que fazer? Para tal, sempre gosto de continuar a frase anterior de George Box, ao meu estilo: se por um lado alguns modelos são úteis, por outro, muitas vezes é importante ter humildade e reconhecer limitações, recorrendo a uma estratégia simples e até ingênua. Aliás, esse é o conceito talmudiano: na ausência de um bom modelo de divisão, divida o bolo em partes iguais! Se sua dúvida é entre investimentos em reais ou dolarizados, por que não dividir meio a meio? Essa estratégia permite buscar ganhos tanto caso o Brasil decole quanto no caso de o dólar voltar a subir, sem a necessidade de ter de escolher um caminho ou outro e arriscar retornos baixos por conta de uma decisão que se revele equivocada. Além disso, já expliquei aqui na coluna que, em geral, apostar 50/50% no Brasil e em investimentos dolarizados traz à tona o grande benefício da diversificação ao reduzir o risco da carteira sem comprometer a sua rentabilidade esperada.
Espero que tenham gostado. Prefiro frustrar com o que entendo ser a verdade a iludir com respostas mais precisas do que conseguimos, de fato, embasar: verdades doídas nos ensinam muito mais do que falsas ilusões. Buscar o inatingível pode nos levar a decisões extremamente ruins. Entender as limitações da ciência nos ajuda, invariavelmente, a tomar decisões melhores e mais consistentes. Para mais perguntas difíceis como a que respondi nesse artigo, siga-me no instagram (@carlosheitorcampani), pois abro caixinhas de perguntas com bastante frequência.
Comentários abaixo são muito bem-vindos. Forte e respeitoso abraço a todos vocês.
* Carlos Heitor Campani é PhD em Finanças, Certificado pelo CNPI e Pesquisador da ENS – Escola de Negócios e Seguros. Além disso, ele é Diretor Acadêmico da iluminus – Academia de Finanças e Sócio-Fundador da CHC Finance e da Four Capital. Campani pode ser encontrado em www.carlosheitorcampani.com e nas redes sociais: @carlosheitorcampani. Esta coluna sai a cada duas semanas, sempre na quinta-feira.