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Texto originalmente publicado na revista Grafistas, nº 18.
Conhecer os potencias riscos e retornos de um investimento é, talvez, o aspecto mais fundamental da finança, na medida em que permite, com isso, uma economia: decidir para onde cada parte do dinheiro vai, em que quantidade, por quanto tempo. Embora todo instrumento financeiro tenha suas particularidades, a análise técnica consegue gerar sistemas no qual os riscos e retornos são definidos, em certa medida, pelo próprio sistema. Afinal, somos nós que decidimos se iremos buscar ganhos de curto, médio ou longo prazo, seus aspectos de liquidez, tolerância de volatilidade, etc.
Obviamente, isso não significa que definimos seus resultados, tão somente que podemos tentar delimitar um horizonte de possibilidades ao invés de nos adequarmos a algum previamente definido. Daí que, em termos de desenvolvimento de sistemas de análise técnica, eu sempre bata na tecla de que ele só seja adequado para atender demandas que não são atendidas por instrumentos tradicionais e que o binômio risco-retorno não se esgota no risco de perda e potencial de ganho em dinheiro.
Podemos aceitar ganhar menos para termos uma volatilidade menor ou um retorno mais alto a custo de uma liquidez menor, para ficar em alguns casos. Como a Economia parte do princípio da escassez e das escolhas excludentes, não há, por definição, como decidir por uma coisa sem abrir mão de outra. A sabedoria está na capacidade de avaliar quais são melhores aos nossos propósitos – oferecendo, assim, uma margem de benefício um pouco maior que a outra.
Quando tratamos de um sistema de análise técnica, precisamos considerar os mesmos fatores de risco-retorno que tangem outros ativos: volatilidade (grau de imprevisibilidade dos resultados), liquidez (velocidade com o qual podemos sacar o investimento sem penalidade), maturação (horizonte de duração mínima para o investimento) e retorno sobre capital. No entanto, além desses, temos ainda aspectos de execução (aplicar o sistema sem erros ou distorções), de repetição (duração entre a geração de um sinal e outro) e seriais (sequências de operações com prejuízo e seu impacto).
De modo a manter o caráter sintético deste texto, buscarei tocar apenas de forma superficial nesses vários pontos que listei acima e que pretendo desenvolver de maneira mais aprofundada no futuro. A ideia aqui é que quem se interessa por análise técnica possa ter uma visão um pouco mais ampla e crítica sobre como esses sistemas funcionam (ou deveriam funcionar) e como cada fator influencia os demais.
Como mencionei acima, volatilidade é uma medida de imprevisibilidade, o que não é necessariamente bom ou ruim, embora seja necessariamente relacionado ao risco-retorno. Quanto maior a volatilidade, maior a chance de conseguir retornos, ou perdas, muito acima do “normal”. Isso, porque o conjunto de possibilidades é mais amplo. Se você está a um metro do jogo de dardos, dificilmente errará por muito o alvo. Se está a dez metros dele, crescem as chances de uma ocorrência incomum, como acertar o olho de alguém no bar.
Na perspectiva em que trabalho, precisamos diferenciar dois tipos de volatilidade: uma interna, que diz respeito ao ativo que está sendo operado, e uma sistêmica, que diz respeito aos resultados produzidos pelo sistema de análise utilizado. Embora não possamos controlar a volatilidade do ativo, podemos limitar a volatilidade dos nossos resultados ao delimitarmos, por exemplo, margens fixas de ganho ou perda – demarcando uma diferença pequena entre maiores ganhos e maiores perdas.
Acredito que a melhor forma de ilustrar o risco-retorno de liquidez é com ações de empresas small-caps, isto é, que tem baixo grau de capitalização na bolsa. Ao contrário de empresas com alta liquidez, a oferta e demanda nesses mercados é pouco diversificada em termos de nível de preço. Logo, é perfeitamente possível que eu queira vender o ativo e não consiga me desfazer da posição como um todo sem deslocar vários níveis de preço para baixo, forçando uma desvalorização do ativo.
Entretanto, por esse mesmo motivo, tem grande potencial de valorização, já que um incremento na demanda afetará o preço de modo exponencial: se são poucos níveis de preço e baixo número de ações, o impacto de grandes posições é muito mais acentuado. É o que ocorre, por exemplo, quando uma empresa muito pouco conhecida ganha notoriedade (positiva) e, de repente, todo mundo quer compra-la, fazendo o preço do papel dobrar, triplicar, enfim.
Quando perguntado sobre por que as pessoas não imitam sua metodologia, que envolvia simplesmente comprar ações de boas empresas por um preço que era considerado abaixo do valor considerado justo (base da análise fundamentalista), Warren Buffet respondeu: “Porque ninguém quer ficar rico devagar.” Sábias palavras, como de costume, do investidor mais bem sucedido da história das bolsas.
A maturação, ou horizonte operacional, diz respeito a quanto tempo você permitirá que o tempo jogue a seu favor: ações, em especial, tendem a se valorizar no médio e longo prazo. No geral, tanto na compra quanto na venda, posições mais longas tendem a incrementar o potencial de ganho sobre capital e mitigar o risco de prejuízo, uma vez que a posição tenha evoluído um pouco a favor. Isso é um dos motivos para o day trade ser uma prática quase universalmente condenada, visto que se buscam ganhos muito maiores do que os oferecidos ao curso de um único pregão, sem mencionar margens de perda máxima (stop loss) incompatíveis com o resultado buscado.
Muito se fala sobre consistência de resultados, embora muito pouco se fale sobre como avaliar essa consistência, que não tem nada a ver com a constância ou frequência de resultados positivos. Em termos de análise técnica, a consistência não está nos resultados, mas na execução, que com o tempo produzirá uma série estatisticamente estável e, portanto, um campo de volatilidade normal estável: os resultados, na maior parte do tempo, ficarão dentro de um conjunto mais ou menos estrito de possibilidades.
Embora pareça simples executar um sistema, as coisas são mais complexas do que parecem, em especial quando consideramos a interferência do fator humano: podemos ir contra o sistema, ignorar sinais, aumentar a exposição, etc. Mesmo automatizado, existem erros envolvendo incapacidade de executar ordens de forma suficientemente rápida, slippage (as ordens não são executadas por inteiro), distorções geradas por movimentos atípicos como gaps ou eventos que geram picos de volatilidade.
Digamos que você desenvolveu um sistema que tem uma alta taxa de acerto e de retorno sobre capital, com boas taxas de risco-retorno em termos de liquidez, maturação, volatilidade. Entretanto, para conseguir isso, os sinais são muito raros, quase tão raros quanto algum documento comprovando os resultados divulgados por quem vende cursos de day trade. Vamos dizer que ele gere um sinal a cada seis meses. O que acontece quando você realiza a terceira operação seguida com prejuízo - que, do ponto de vista estatístico, era algo esperado?
Bom, problema nenhum, se não houver problema realizar sua próxima operação somente, digamos, daqui a outros seis meses. Entretanto, se você precisava que aquela operação gerasse lucro a curto prazo, temos aí um problema. Isso é o que podemos chamar de risco-retorno de repetição: sinais mais raros tendem a ser mais confiáveis, mas você precisa considerar que muito tempo pode se passar entre um e outro, o que demanda certo comprometimento prévio, em especial considerando que a análise técnica é regida pela lei dos grandes números: sua vantagem estatística sobre o mercado não se mostra em operações individuais, mas em séries de operações com os mesmos parâmetros.
Na medida em que constitui uma série histórica de retornos individuais, com aspectos estatística pré-avaliados, qualquer sistema incluirá períodos no qual ocorrem sequências de ganhos ou perdas consecutivas. No segundo caso, elas podem gerar um impacto bem grande no capital investido e, portanto, cada operação deve levar em conta a possibilidade de se iniciar uma dessas “marés de azar”.
Logo, é crucial de realizar testes robustos para saber qual a duração média e frequência desse tipo de evento, inclusive para ajustar o risco-retorno financeiro por operação para que os eventuais rebaixamentos de saldo (drawdowns) não acabem quebrando a conta ou produzindo uma projeção que, no limite, não termina gerando um lucro que justifique a aplicação do sistema, ou que o torne inviável em termos de prazo de maturação – quer dizer, demorando tempo demais para pagar a si mesmo.
A diversificação de estratégias e ativos negociados é um último ponto que gostaria de tocar. Embora seja uma prática comumente associada a gestão de risco, ela incide também sobre o fator retorno: alocando menos dinheiro em mais ativos, sacrificamos ganhos nas operações com lucro. Entretanto, trata-se de uma relação que considero justa: melhor reinvestir um pouco menos quando ganho que repor prejuízos maiores quando perco.
A relação risco-retorno e seus aspectos econômicos formam um sistema complexo: nunca incidimos sobre um fator sem afetar os demais. Explorei só alguns, mas torço para que o texto fomente uma reflexão sobre as escolhas, tanto nos investimentos quanto na vida.
Grande abraço
André.
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