Saudações.
Nesta terceira (e última) parte desta minissérie que venho escrevendo para incentivá-lo a pensar em sua estratégia para 2018, faço uma breve comparação de fatores-chave das rotinas de investidores fundamentalistas e técnicos.
Devo confessar: como tive oportunidade de trabalhar em diversas casas, pude conviver com o choque dessas duas culturas de perto... e ainda me fascina ver como são distintos os dois modos de trabalhar, não só nas estratégias usadas, mas no comportamento que transparece nos indivíduos - estamos, no limite, falando de personalidades distintas - e daí a importância de você compreender as distinções e identificar onde se encaixa melhor.
Gostaria de poder dizer que a escolha é puramente racional: fosse assim, nos restaria debruçarmo-nos sobre comparações de retornos das diferentes estratégias. Mas francamente? No fundo, acho que você está predestinado a ser uma coisa ou outra: é uma questão de personalidade. As skills necessárias para cada abordagem são tão distintas que, com raras exceções, seu pendor para uma ou outra depende de quem você é - daí, de novo, a importância de conhecer-se primeiro; nosce te ipsum.
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O analista fundamentalista é, no fundo, um idealista: ele acredita que cada ativo tem um valor justo, e a ele cabe descobri-lo.
O dia a dia dos fundamentalistas é basicamente tentar separar o joio do trigo. O mercado vive com muito mais ruído do que informação de fato, e é preciso absorvê-la e julgá-la.
Exemplo claro disso foi o fatídico 18 de maio, quando a Bolsa reagiu ao áudio de Joesley Batista - quem estava comigo à época há de lembrar do quanto insisti tratar-se de uma total distorção de preços com pouco a se preocupar."Correr para as montanhas? Não", lembram-se? A verdade seja dita: ainda que as repercussões do episódio possam ter postergado a retomada de determinados setores, os efeitos em nada se compararam com o pânico expresso na tela do homebroker. Para o fundamentalista, preço não é fundamento.
Nessa pegada, nos vemos diversas vezes garimpando aquilo que realmente importa para verificar se há algum impacto nas teses previamente selecionadas ou espaço para novas ideias que porventura possam surgir. O dispêndio de tempo e energia são mais dispersos e podem ocorrer a qualquer dia e horário, haja visto que o que se busca aqui são boas empresas a bons preços, deixando de lado o timing que, na esmagadora maioria das vezes, pouco importa.
E mais: tal qual já ensinavam Fox Mulder e Dana Scully, a verdade está lá fora. O melhor investimento do analista fundamentalista é em sapatos confortáveis com solas duráveis: não é dentro do escritório, sentado em frente a um monitor, que ideias surgirão.
Com mais tempo dedicado às mesmas teses, acabamos realizando menos operações - grosso modo, substituímos quantidade por qualidade: firma-se então posições mais "estruturais" com holding periods (o tempo em que você fica comprado/vendido na mesma ação) mais longos - já ouviu falar do clássicobuy and hold de Buffet? Então: exatamente isso.
Como os períodos de concretização são mais longos, retornos buscados são de maior amplitude. Volta e meia recebo questionamentos na Top Shot sobre se ainda vale a pena entrar em determinada operação depois que a ação se valorizou, digamos, 4 ou 5 por cento. A resposta é simples: se uma variação dessa magnitude viabiliza ou inviabiliza a entrada na operação, então esta não é uma tese fundamentalista - isso é margem de erro do Datafolha, e análise não é ciência exata.
O desafio do fundamentalista é não mudar de posição se, embora os fundamentos estejam preservados, os preços estejam contra você. O fundamentalista defende que preço não é fundamento; pelo contrário, muitas vezes ele o superestima ou o subestima, e o grande truque está justamente em saber aproveitar esses momentos para comprar ou vender.
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Já o analista técnico é um cético: preço é fundamento, e o que lhe importa é aquele está na tela. Discussões sobre quanto deveria valer determinada ação não fazem sentido: importa o que está sendo comprado e vendido e se há alguém disposto a comprar ou vender a um preço maior ou menor.
Logo, a vocação do grafista é acompanhar o mercado minuto a minuto: o gráfico é o eletrocardiograma da bolsa. É o que faz o José Castro em sua Trading Journal, sempre atento a cada potencial inflexão dos preços.
(Daqui se depreende que há um enorme dispêndio de tempo e energia durante o horário do pregão. Leve em conta se isso é viável para você ou não, considerando seus outros afazeres)
Pelo já explanado, pouco importa se por fundamentos aquela ação já seria considerada cara. Se a tendência de curto prazo segue um fluxo consistente, ocall se sairá muito bem, obrigado - desde que o timing seja correto, é claro. Daí a necessidade das posições serem mais fluidas, com maior número de operações. Holding periods tendem a ser mais curtos com admissão de retornos menores: de grão em grão a galinha enche o papo.
O grande desafio do grafista é o exato oposto do fundamentalista: é ter a disciplina de mudar de posição sempre que a estratégia exigir, independentemente de percepções quanto a fundamento: se preço é tudo o que importa e a estratégia não o considera mais interessante, então encerre a operação sem dó e siga em frente.
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Munido dessas informações, cabe a você, por um lado, um autoexame de suas preferências pessoais, forças e fraquezas na hora de decidir o que quer ser.
E, por outro lado, a compreensão do que esperar realisticamente de cada estratégia. Discutir fundamento com analista técnico ou sinal técnico com analista fundamentalista é, francamente, uma colossal perda de tempo. Não se questiona suporte e candle de alta para uma tese fundamentalista, tampouco se busca verificar a alteração do management para um grafista - não passe vergonha, por favor.
Eles estão olhando para coisas diferentes. Cada um, à sua maneira, buscando retornos acima do mercado.
Qualquer que seja o lado da força que você escolher, tenha claramente o seguinte: tanto em uma quanto em outra abordagem, suas emoções trabalham contra você. Cada qual busca domá-las a partir de um diferente conjunto de premissas - o fundamentalista é escravo de suas convicções e o grafista é escravo do preço de mercado -, e os principais problemas ocorrem justamente quando você incorre na tentação de trai-las.
Conhece-te, e a partir disso torna-te quem tu és. E que, desse processo de aceitação radical de suas forças e limitações emerja um caminho a seguir no ano que se aproxima.
Quem você quer ser?
Pense nisso.
E lembre-se: tem uma guerra lá fora.