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Falando de Investimento

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Falando de Investimento
Por Sebastião Buck Tocalino   |  17.05.2015 10:56
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O texto abaixo foi meu email para um sobrinho, jovem investidor português trabalhando na Inglaterra. Acredito que parte do seu conteúdo possa ser de interesse para outros investidores.

Sérgio, eu fico contente que tenha essa oportunidade de estar trabalhando fora de Portugal. Viver como imigrante tem seus pontos fracos (saudades da família e dos amigos, por exemplo), mas também nos permite uma experiência fantástica e a vantagem de vermos a vida por um prisma diferente. Some-se a isso o fato de estar vivendo na Inglaterra!

Eu adoro Londres. Estive aí várias vezes, mas todas como turista. Gostava muito de passear em Candem Town, Portobello Road, vasculhar lojinhas de CDs a procura de raridades do Rock e do Jazz... Outra coisa que me fascinava era entrar nos pubs e ver aqueles punks exóticos tomando cerveja ao lado de yuppies arrumadinhos de terno e gravata – tudo na maior normalidade e sem qualquer tensão. Também sou fã da comida indiana bem temperada, e me deliciei com a abundância dela por aí! A diversidade cultural é algo muito interessante, e Londres me impressionou bem mais que outras metrópoles. Espero que esteja aproveitando muito, desde sua vida profissional, até social e cultural. E mesmo seus momentos mais difíceis ou solitários fora de casa serão lembrados com saudades mais tarde. Desejo-lhe muitas felicidades por aí e sempre, onde quer que a vida o leve.

Quanto aos seus investimentos, também fico feliz em saber que desde cedo está construindo seu patrimônio e zelando pela sua segurança financeira. Dinheiro, nem de perto, é o que a vida tem de melhor, mas ajuda a fazê-la mais fácil e menos atribulada, sem dúvida alguma!

Estamos vivendo anos bastante difíceis e atípicos em matéria de investimentos. O mundo passa por uma fase de repressão financeira. Através da impressão de dinheiro, os bancos centrais tentam justamente desestimular a poupança e o acúmulo de reservas financeiras pela população. O raciocínio é que gerando um retorno irrisório ou mesmo negativo (prejuízos, em vez de lucros, se contabilizada a inflação com dinheiro impresso) as pessoas vão preferir gastar o dinheiro disponível com medo de vê-lo perder valor, sem qualquer recompensa por economizá-lo ou investi-lo na renda fixa. Se uma parte disso é de fato política de repressão intencional da poupança, na intenção de fazer o dinheiro circular mais e dinamizar a economia (garantindo a receita federal dos governos através de impostos), por outro lado, há sim uma mudança de paradigma na economia mundial. Com a perspectiva dos países mais avançados perderem seu embalo, graças a um menor número de consumidores dinâmicos (jovens) e uma maior quantidade de adultos maduros (bem mais conservadores nos hábitos de consumo), a verdade é que existe hoje uma menor demanda por investimentos em muitos dos setores produtores de bens e serviços. O setor de saúde é uma das exceções, pois uma população mais velha requer mais cuidados médicos.

O mercado imobiliário era um dos setores tradicionalmente favoritos tanto para bancos (ofertando financiamento) como para poupadores (compradores de imóveis financiados), contudo, haverá em breve nesses países mais maduros uma maior oferta de imóveis do que a demanda necessária para absorvê-los. Isso se deve à menor formação de novas famílias. Se sua avó teve quatro filhos há duas gerações atrás, como era o costume, hoje cada casal tende a ter um só filho ou, quando muito, dois. A demanda por tudo passa a ser menor: menos roupas, menos calçados, menos automóveis, menos imóveis, etc.

Aquilo que gera a rentabilidade da nossa poupança é a demanda por capital do lado de quem quer ou precisa investir na capacidade produtiva, tomando assim sua poupança emprestada. Quando existe uma maior demanda para ampliação da capacidade produtiva a fim de suprir um consumo crescente, a própria lei da oferta e procura se encarrega de elevar os juros. Mas o paradigma é outro para os próximos 10 anos. Se as indústrias manufatureiras e prestadores de serviços veem uma queda na demanda de consumo, não há necessidade de investirem em um aumento da sua capacidade. Por isso, seria injusto apontar o dedo para os bancos centrais, como se fossem os únicos culpados pelos juros baixos e a baixa rentabilidade de nosso dinheiro. A meu ver, o grande problema não seriam os juros baixos em si, mas sim a impressão de dinheiro, que acaba por negativar os retornos dos investimentos mais conservadores e, mesmo sem dinamizar a economia, tende a estimular a especulação na bolsa e no mercado de commodities. A maior inflação que essa expansão monetária conseguiu criar até alguns meses atrás foi em commodities como petróleo, metais preciosos e alimentos. Ou seja, uma inflação nos custos de insumos, contudo sem uma significativa inflação do consumo!

Mas mesmo aí, também é compreensível o desespero dos líderes na política monetária. O fracasso da inflação, sucumbindo à deflação, perante o enorme nível de endividamento generalizado, teria sérios efeitos colaterais. Contudo, eu receio que, por pior que seja uma crise deflacionária, ela ainda seria a coisa mais natural diante do atual perfil populacional e do endividamento acumulado em várias economias importantes. O erro pela omissão, nesse caso, talvez fosse mais aceitável, e menos nefasto a longo prazo, que a obsessão em forçar uma condição econômica bastante fora do curso natural das coisas. No campo das suposições, é imprudente nos lançarmos a afirmações mais enfáticas. A paixão por uma ou outra ideia pode apenas obscurecer uma ponderação mais objetiva... Mas volta e meia eu me pego fazendo um paralelo mental entre as atuais políticas monetárias e o tema do célebre romance gótico de Mary Shelley (de 1818). Dr. Victor Frankenstein, inconformado com o ciclo natural da vida, tenta alterar a natureza dos fatos, mas ao fazê-lo, perde o controle do resultado de seus próprios esforços. Ao fim, o fruto de sua obcessão se revelaria uma tragédia maior que o frustrante destino nos reservado pela natureza.

A obsessão, volta e meia, se mostra uma caixa de Pandora! Assim como Prometeu, na antiga mitologia grega, foi creditado por alguns – e culpado por outros - por desempenhar um papel crucial no destino da humanidade, no futuro, a história também registrará suas versões e vereditos sobre as atuais políticas dos bancos centrais.

Para mim, o verdadeiro erro foi não prevenirem a crise antes que ela se armasse. Afinal, a demografia é visível à distância, com antecedência de muitos anos! Alertados por ela, o sensato teria sido uma maior cautela e retração na concessão de crédito, e não um fomento à expansão do endividamento privado. Mas, como é comum, a ganância se mostrou maior que a prudência.

Enfim, vamos ao que lhe interessa: vivendo na Europa, você faz bem em diversificar suas economias entre libras esterlinas e euros. Eu procuraria colocar uma parte disso também em dólares dos Estados Unidos. Acho até que poderia dividi-la em 3 partes iguais: um terço de suas economias em cada moeda. Como você deve ter observado pelos meus textos, continuo acreditando que os EUA, apesar de imprimirem muito dinheiro, ainda serão incapazes de compensar uma desalavancagem do consumo e da especulação. O crédito é responsável pela multiplicação da moeda, e a impressão de novos dólares também aumenta a quantidade de de dinheiro na economia. Entretanto, não acredito que o crédito e a impressão de dinheiro possam se manter nesse passo eternamente. Quando houver uma maior retração do endividamento em dólares, a quantidade dessa moeda deverá diminuir. E, em algum momento, a impressão de dinheiro também terá que cessar. Com menos dólares e crédito na economia, a moeda voltará a se valorizar. Nesse início de 2015, já tivemos prova do quão rápido isso pode acontecer! Acredito que acontecerá novamente. Escrevi sobre isso em 2011 e ainda não vi nada que me fizesse mudar de opinião.

Antes de prosseguir, tenho que lhe dizer que tudo aqui é no âmbito de minhas opiniões pessoais e nada parece estar escrito a ferro e fogo na economia. Se eu tento estudar e adotar uma visão tão realista quanto me é possível, claro que posso estar enganado e frustrar-me no desenrolar dos fatos mais adiante. Qualquer decisão a cerca de seus investimentos deverá ser sempre sua! Faça suas próprias análises. Faça muitas perguntas a si mesmo e aos outros. Procure conversar com pessoas diferentes e reunir várias opiniões. Seu pai, como empresário bem sucedido, também pode lhe passar muito de sua própria experiência e visão de negócios. Lembre-se, porém, que as pessoas tendem a se basear numa ótica mais retrospectiva, o que nem sempre garante bom desempenho nas perspectivas futuras. Diante de curvas na estrada, não é possível conduzirmos dando mais atenção ao espelho retrovisor. Tentarei sempre ajudá-lo se precisar da minha opinião, mas é imprescindível que você reúna muita informação e tire suas próprias conclusões. A melhor gestão é aquela do próprio investidor interessado, informado e engajado em gerir seu próprio investimento. Jamais culpe quem quer que seja por quaisquer frustrações que venha a sofrer com seu capital. A responsabilidade pelas suas decisões ao longo da vida sempre foi, é e será somente sua!

Dito isso, aqui vão minhas opiniões:

Como meus textos já devem ter mostrado, eu acho que o cenário mundial deve piorar dentro de alguns anos. Não vejo como escaparmos de uma maior deterioração até 2019. A meu ver, o problema deve se mostrar insustentável mesmo antes. Será muito difícil continuar empurrando essa dor de barriga na economia para além de 2018 ou 2019 (e olhe lá!). O tempo eu estimo com base na projeção dos perfis demográficos de vários países. Além disso, já se passaram anos com tanta impressão de dinheiro empurrando os juros reais para o campo negativo. Se, depois de tanto tempo, a dor de barriga aumentar em vez de diminuir (bem possível), ficará bastante difícil justificarem a continuidade dessas políticas monetárias.

Veja que ainda não houve uma retração significativa do endividamento mundial. Não no setor público e não no setor privado. Os estímulos monetários só aumentaram o endividamento total. Como é possível ou sustentável mantermos uma economia onde as dívidas aumentam constantemente? É preciso que a conta seja encarada, uma hora ou outra. Parte dela terá que ser paga, outra parte, infelizmente, resultará em calotes!

A meu ver, você deve primeiramente abrir uma conta em dólares (ou aí na Inglaterra ou em algum outro país). Isso deve ser fácil no hemisfério norte, sem qualquer necessidade de se deslocar para outro país. Procure se informar, mas acho que pode fazer tudo através da internet, correio e fax. A partir daí, recomendo que fique de olho nos títulos da dívida pública dos EUA. Assim que uma nova edição de QE chegar próxima do seu fim, ou perto disso, seria a hora de comprar títulos de longo prazo (maturidade acima de 10 anos) do Tesouro dos EUA. Existem ETFs (Exchange-traded Funds) baseados nesses títulos norte-americanos (com diferentes maturidades) que poderão facilitar seu investimento.

O gráfico abaixo mostra alguns desses ETFs, todos negociados em US dólares. Dou destaque para o TLT (com títulos de maturidade superior a 20 anos):

Treasuries (ETFs) e QEs 1, 2 e 3
Treasuries (ETFs) e QEs 1, 2 e 3


Seria recomendável aguardar uma nova oportunidade para comprá-los. Durante cada um dos QEs anteriores esses títulos longos (e seus correspondentes ETFs) se desvalorizaram. Eu acredito que outro QE (Quantitative Easing - ou impressão de dólares) virá por aí. Nesse meio tempo, o melhor é ficar quieto à espera de uma nova desvalorização dos títulos longos. Só então pensaria em comprá-los mais baratos. Veja que ao fim de cada QE eles se valorizaram rapidamente. O melhor momento para comprar esses títulos longos (da linha azul) será quando ocorrer novamente uma aproximação das várias linhas coloridas.

O ETF de código TLT é negociado nos EUA em dólares, mas você deve conseguir comprá-lo através de um banco na Europa. Eu realmente acho interessante você colocar uma boa parte de seu dinheiro em dólares.

Na bolsa de Londres é negociado outro ETF, lançado em janeiro desse ano (2015) na Irlanda pela Black Rock, que também é lastreado nos mesmos títulos longos (+20 anos) dos EUA, seu ticker (código de negociação) é IDTL. Salientei os dois ETFs nas duas linhas azuis da tabela abaixo. Se aquilo que penso vier de fato a acontecer, os lucros virão tanto da valorização do dólar, como da apreciação desses títulos.

US Treasuries em ETFs na Europa 2015-05-15
US Treasuries em ETFs na Europa 2015-05-15


Quanto mais longos os títulos, maiores serão suas oscilações, tanto para cima como para baixo. Daí a importância de esperar pelo melhor momento. Na hora certa, o lucro pode ser surpreendente, mas na hora errada, o prejuízo pode ser terrível! Outra coisa importante é que a maturidade não é o tempo que você deverá mantê-lo na carteira. Será preciso acompanhar seu desempenho e sair quando houver sinais de uma nova mudança na tendência. No entanto você é jovem (28 anos, não é?) e é nessa fase da vida que poderá se expor mais ao risco. De forma geral, quanto mais nossa idade avança, mais conservadores devemos ser nos investimentos. Mas essa relação entre risco e lucro é inevitável. O melhor momento para se informar e se engajar em investimentos mais arrojados e, potencialmente mais lucrativos é na juventude. Entretanto, investimento não é jogo e Bolsa não é cassino! Se confiar na sorte em vez de procurar aumentar seus conhecimentos e sua capacidade analítica, vai se transformar em um jogador e, fatalmente, em um perdedor.

Por enquanto, o melhor é manter seu dinheiro em qualquer coisa conservadora e líquida (fácil de resgatar, garantindo seu acesso rápido ao dinheiro) sem muita preocupação com maior rentabilidade. No momento ideal você vai querer investi-lo em algo melhor. Investir é como ir à pesca. A maior parte do tempo você precisa é de paciência na espera. As melhores oportunidades para lucrar só aparecem de vez em quando. Costumo dizer que 80% dos lucros são resultados de apenas 20% dos negócios, o difícil é esperar e reconhecer essas oportunidades mais raras e rentáveis.

Desejo-lhe sucesso!

Um grande abraço,
Sebastião.

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