Últimas Notícias
Investing Pro 0
🚨 Nossos dados Pro revelam a melhor ação da temporada de balanços Acesse dados

Últimas Notícias

BB inclui CSN Mineração, Petrobras e Raia Drogasil na carteira semanal

Finanças comportamentais: “Oh vida, oh azar... Por que tudo só piora?”

br.investing.com/analysis/financas-comportamentais-oh-vida-oh-azar-por-que-tudo-so-piora-200453768
Finanças comportamentais: “Oh vida, oh azar... Por que tudo só piora?”
Por Luís Antônio Dib   |  02.12.2022 10:29
Salvo. Ver Itens salvos.
Este artigo já foi salvo nos seus Itens salvos
 

Você já ouviu falar em “Declinismo”? Segundo a Wikipedia, trata-se da crença de que uma sociedade ou instituição está tendendo ao declínio. Particularmente, é a predisposição, possivelmente devido a vieses cognitivos, que nos leva a ver o passado de forma mais favorável e o futuro de forma negativa no longo prazo ou de modo permanente.

A crença pode ser originalmente atribuída ao trabalho de Edward Gibbon. O historiador inglês publicou, ao redor de 1780, o livro “Declínio e Queda do Império Romano”. Nele, Gibbon argumentou que Roma entrou em colapso devido à perda gradual da virtude cívica entre seus cidadãos, que se tornaram preguiçosos, mimados e inclinados a contratar mercenários estrangeiros para lidar com a defesa do estado. Ele acreditava que a razão deveria triunfar sobre a superstição para salvar as então superpotências da Europa de um destino semelhante ao do antigo Império.

Já no livro “O Declínio do Ocidente”, outro historiador, desta vez o alemão Oswald Spengler, alimentou os debates filosóficos e políticos ao longo do século XX. Além de dar ao Declinismo seu nome popular, o livro, lançado após a Primeira Guerra Mundial, de certo modo capturou o espírito pessimista da época. Spengler apontou que a história viu a ascensão e queda de várias civilizações, como a egípcia, a grega e a chinesa, entre outras. Ele alegou que entre apogeu e declínio, todas seguiram ciclos que abrangiam cerca de mil anos. Spengler acreditava que não apenas a Civilização Ocidental estaria também em declínio, mas que tal declínio era inevitável.

Se olharmos de modo objetivo estatísticas de educação, padrão de vida ou expectativa de vida, entre outras, fica claro que as sociedades do mundo estão melhorando ao longo das décadas. As novas gerações são mais educadas e têm acesso a melhores empregos. Foram feitos avanços significativos na questão da igualdade racial e nos direitos de praticamente todas as chamadas minorias ao longo do último século. No Brasil, uma criança nascida no final dos anos 1960 viveria em média até os 58 anos, enquanto que os bebês nascidos nos anos 2020 chegarão provavelmente nos 80 anos de idade na média. Entretanto, muitas pesquisas apontam pessimismo em relação ao futuro e nostalgia em relação ao passado. Por exemplo, mesmo com melhorias em diversos indicadores econômicos importantes, a maioria da população do Reino Unido decidiu por sair da Comunidade Europeia (Brexit).

Mas, se não está ancorado em dados reais, por que esse viés ocorre?

O declinismo pode ser visto como um subterfúgio emocional da mente que, em momentos tristes, tenta relembrar supostos momentos mais felizes. Outro viés psicológico, chamado de saliência da reminiscência, também ajuda na explicação. As pessoas com mais idade tendem a se lembrar melhor dos eventos ocorridos na juventude: geralmente dos 10 aos 30 anos. A energia da juventude aliada à sensação de vivenciar as coisas pela primeira vez marca de modo indelével a memória, tornando os acontecimentos mais recentes enfadonhos. Em artigo na revista The New Yorker, Adam Gopnick sugere que “a ideia de nosso declínio é emocionalmente magnética, porque a vida é um longo deslize, e o platô que acabou de passar é mais fácil de amar do que o que está chegando”. Não é a toa que quase todos amam as “velhas canções”.

Daniel Kahneman, o vencedor do Nobel por seus trabalhos sobre Economia Comportamental, falou do viés da confirmação. Nós buscamos provas e evidências para suportar aquilo no qual já acreditamos, muitas vezes de modo apenas intuitivo. Sem dúvida, esta maneira de nosso cérebro “ganhar tempo” ou mesmo buscar conforto psicológico também contribui para o declinismo, pois geralmente filtramos e interpretamos os dados ou fatos de maneira a apoiar a visão de um mundo em declínio.

O professor de políticas públicas da Universidade de Harvard, Joseph S. Nye, aponta com ironia que os “declinistas” são um dos mais importantes recursos renováveis dos Estados Unidos. A cada nova crise, surgem diversos especialistas proclamando o declínio do país, o iminente colapso do dólar e o final de uma era, para sempre. Entretanto, Nye lembra que recessões são cíclicas, embora algumas sejam mais profundas e durem mais do que outras. Mas que, em algum momento, “a maré muda”.

Talvez, o declinismo esteja ancorado em uma analogia com nossa biologia. Seres orgânicos, sem exceção, nascem, crescem, envelhecem e, finalmente, morrem. Mas pouco sabemos sobre o ciclo de vida de nações ou sociedades. O Império Romano Ocidental levou três séculos do apogeu até o colapso. Após perder as suas colônias na América, foi vaticinado que a Grã-Bretanha estaria reduzida à insignificância. Logo em seguida a Revolução Industrial ajudou a produzir o maior século britânico na História. Mas, então, Estados Unidos, Inglaterra ou mesmo o Brasil não estariam em declínio? Os países, sinceramente, não tenho como saber. Agora, que eu e você estamos declinando, disto, infelizmente, tenho certeza.

No Brasil, é interessante notar como as pessoas têm saudades de governos anteriores (provavelmente quando eram jovens e registraram mais momentos de felicidade na memória). “Viúvos” e “viúvas” da era Vargas, da ditadura militar, da primeira era do PT no poder etc. Não tenho dúvida que com o início do novo governo Lula, surgirá a saudade dos curtos anos de Bolsonaro. E depois que alguém substituir Lula no futuro, novamente ele será lembrado com saudade. O passado sempre foi melhor, o futuro sempre será incerto e associado com grandes riscos, principalmente a partir de um presente que quase sempre nos parece desapontador. Consciente deste viés, chega a ser engraçada a quantidade de variações encontradas nas redes sociais da previsão sombria: “A última decisão da Suprema Corte é apenas mais um exemplo de como nosso país está desmoronando nos dias de hoje”. De qual decisão estou falando? Pode escolher, qualquer uma funciona. E de qual país estou falando? Pode escolher também.

O mercado financeiro, muito influenciado pelas expectativas futuras da economia, também sofre no processo. A perspectiva individual trazida pelo declinismo pode levar as pessoas a serem excessivamente pessimistas e, portanto, não tomarem decisões que as ajudem racionalmente a se preparar para o futuro, seja financeiramente, seja em outras dimensões (como a saúde, por exemplo). Mas, talvez, a maior tragédia desse viés seja que nossa expectativa coletiva de declínio pode contribuir para uma profecia a ser realizada no mundo real. A sensação de que a sociedade está em declínio pode nos levar a desconfiar das autoridades. Isto foi constatado por um estudo que mostrou que as pessoas concordam com o populismo porque sentem que a elite política falhou com elas, por não ter o melhor interesse no coração. Embora algumas dúvidas e resistências contra a elite política sejam saudáveis, o declinismo muitas vezes nos deixa com a sensação de que não há esperança nem futuro. É precisamente aí que corremos o maior risco, como sociedade, de entregar nosso futuro a “falsos profetas” e toda espécie de charlatões. Já aconteceu naquele passado que achamos que foi melhor.

Podendo, melhor evitar. Afinal, um pouco de otimismo não faz mal a ninguém. Vai melhorar!

Finanças comportamentais: “Oh vida, oh azar... Por que tudo só piora?”
 

Artigos Relacionados

Finanças comportamentais: “Oh vida, oh azar... Por que tudo só piora?”

Adicionar comentário

Diretrizes para Comentários

Nós o incentivamos a usar os comentários para se engajar com os usuários, compartilhar a sua perspectiva e fazer perguntas a autores e entre si. No entanto, a fim de manter o alto nível do discurso que todos nós valorizamos e esperamos, por favor, mantenha os seguintes critérios em mente:

  • Enriqueça a conversa
  • Mantenha-se focado e na linha. Só poste material relevante ao tema a ser discutido.
  • Seja respeitoso. Mesmo opiniões negativas podem ser enquadradas de forma positiva e diplomática.
  • Use estilo de escrita padrão. Incluir pontuação e letras maiúsculas e minúsculas.
  • NOTA: Spam e/ou mensagens promocionais ou links dentro de um comentário serão removidos.
  • Evite palavrões, calúnias, ataques pessoais ou discriminatórios dirigidos a um autor ou outro usuário.
  • Somente serão permitidos comentários em Português.

Os autores de spam ou abuso serão excluídos do site e proibidos de comentar no futuro, a critério do Investing.com

Escreva o que você pensa aqui
 
Tem certeza que deseja excluir este gráfico?
 
Postar
Postar também no :
 
Substituir o gráfico anexado por um novo gráfico?
1000
A sua permissão para inserir comentários está atualmente suspensa devido a denúncias feitas por usuários. O seu status será analisado por nossos moderadores.
Aguarde um minuto antes de tentar comentar novamente.
Obrigado pelo seu comentário. Por favor, note que todos os comentários estão automaticamente pendentes, em nosso sistema, até que aprovados por nossos moderadores. Por este motivo, pode demorar algum tempo antes que o mesmo apareça em nosso site.
Comentários (9)
Andrey Pereira
Andrey Pereira 04.12.2022 6:45
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Segue o gráfico
diego Andrade concursos
diego Andrade concursos 04.12.2022 5:39
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
otimo artigo, ponderações importantissimas
Efraim Celio Ventura
Efraim Celio Ventura 03.12.2022 21:54
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Parabéns pelo artigo.
Gustavo Mauro Barbosa
Gustavo Mauro Barbosa 03.12.2022 19:38
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Sencional, excelente artigo 👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿
Pedro Hurwicz
Pedro Hurwicz 03.12.2022 18:49
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Esse mês promete um rally das vendas do varejo e da construção civil
Mario Pinto
Mario Pinto 03.12.2022 17:14
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Excelente texto! Foge do lugar-comum, tipico dos textos envolvendo mercado financeiro.
Thaynan Araujo
Thaynan Araujo 03.12.2022 17:10
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
🔺🔻
José Artur Medina
José Artur Medina 02.12.2022 12:01
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Nossa, um texto muito bem escrito mas sem respaudo na realidade. Sim as ondas do mercado, sofrem influência de fatores subjetivos, como você bem descreveu, entretanto você ignora o movimento as marés, que determina a progressão das ondas. De boa, você acha mesmo que o mercado cai por um pessimismo injustificado? Vamos ignorar que a investigação sobre o atual presidente eleito recuperou 6 bi. Ignoremos, também, que durante toda a campanha eleitoral ele defendeu a irresponsabilidae fiscal assim como a emissão de papel moeda. Ignoremos que o partido deste presidente produziu quase 10 anos de recessão. Mesmo assim, não dá pra ignorar a PEC da irresponsabilidade fiscal que tramita. O estadismo perdulário produz déficits, e emissão de moeda sem lastro, que obriga a elevação da Selic para conter a inflação subsequente. Selic elevada inviabiliza negocios a prazo. A elevação dos juros expõe os CDBs pós fixados como melhor investimento que o risco de bolsa. Sir, mais economia, menos literatura.
Wano Carvalho
Wano 02.12.2022 11:16
Salvo. Ver Itens salvos.
Este comentário já foi salvo nos seus Itens salvos
Otimismo! Bora trabalhar!
 
Tem certeza que deseja excluir este gráfico?
 
Postar
 
Substituir o gráfico anexado por um novo gráfico?
1000
A sua permissão para inserir comentários está atualmente suspensa devido a denúncias feitas por usuários. O seu status será analisado por nossos moderadores.
Aguarde um minuto antes de tentar comentar novamente.
Anexar um gráfico a um comentário
Confirmar bloqueio

Tem certeza de que deseja bloquear %USER_NAME%?

Ao confirmar o bloqueio, você e %USER_NAME% não poderão ver o que cada um de vocês posta no Investing.com.

%USER_NAME% foi adicionado com êxito à sua Lista de bloqueios

Já que acabou de desbloquear esta pessoa, você deve aguardar 48 horas antes de bloqueá-la novamente.

Denunciar este comentário

Diga-nos o que achou deste comentário

Comentário denunciado

Obrigado!

Seu comentário foi enviado aos moderadores para revisão
Cadastre-se com Google
ou
Cadastre-se com o e-mail