A nova edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela ANBIMA em parceria com o Datafolha, revela um Brasil em transição (e em tensão). Comportamentos que pareciam sólidos, como o apego à poupança, estão em declínio, enquanto práticas preocupantes, como as apostas esportivas, ganham espaço. Ao mesmo tempo, cresce o estresse financeiro, encolhe o planejamento para aposentadoria e aumenta a desconexão entre o que os brasileiros dizem esperar do futuro e o que estão, de fato, construindo. Este não é apenas um levantamento estatístico. É um alerta.
A caderneta de poupança sai de cena
Por muitos anos, a caderneta de poupança foi sinônimo de investimento para o brasileiro médio. Isso tem mudado. Em 2024, apenas 23% da população declarou investir nela, menor percentual desde o início da série histórica recente. E o dado mais emblemático talvez seja este: só 16% mencionaram espontaneamente a poupança como produto conhecido, contra 22% no ano anterior.
Esse esquecimento não é trivial. Pode significar uma abertura para novas opções financeiras, mas também pode refletir um desinteresse mais amplo pelo mundo dos investimentos formais. Afinal, como veremos adiante, o dinheiro continua circulando. Só está indo para outros lugares.
Quando o jogo vira aposta: a ascensão das “bets
E aqui entra uma das maiores preocupações da pesquisa. Cerca de 23 milhões de brasileiros apostaram em 2024. E, embora a crença de que “apostar é investir” tenha caído de 22% para 16%, ainda são 4 milhões de pessoas tratando uma atividade de risco puro como se fosse planejamento financeiro.
Mas sejamos honestos: apenas dizer “não apostem” não resolve. É como campanhas antidrogas baseadas no velho “diga não”, que ignoram os contextos sociais, emocionais e culturais que sustentam o vício. As apostas oferecem emoção rápida, promessa de ganho fácil e, muitas vezes, escapismo. Ingredientes potentes num país marcado por desigualdade e frustração financeira.
Conforme esta pesquisa mais recente, uma parte dos apostadores se vê como investidor porque acredita entender o funcionamento das probabilidades, como se houvesse um método científico por trás de cada palpite. Muitos afirmam “estudar os jogos”, “analisar estatísticas” ou “conhecer os times”, como se isso anulasse o fator sorte. Essa sensação de domínio gera uma ilusão perigosa de controle e racionalidade, aproximando a prática da especulação pura, onde o retorno depende muito mais do acaso do que da estratégia real.
Mas os dados são alarmantes. Quase metade dos brasileiros que apostaram em 2024 (47%) está com dívidas em atraso, um número bem acima da média da população, que é de 33%. O cenário piora entre os que enxergam as apostas como investimento: 51% deles estão inadimplentes.
Além disso, 52% dos apostadores admitiram já terem feito novas apostas para tentar recuperar perdas anteriores, sinal claro de comportamento impulsivo. E embora a maioria esteja fora da zona de risco, 10% dos usuários de aplicativos de apostas apresentaram alta tendência ao vício.
Precisamos de uma resposta em múltiplas frentes. Educação nas escolas, campanhas públicas baseadas em evidência, fiscalização das empresas, apoio psicológico para casos de vício, e um debate mais honesto com a sociedade. A dificuldade? Parte da imprensa, que deveria informar e alertar, é também financiada por esses mesmos anunciantes de “bets”, o que dificulta manter a imparcialidade e o alinhamento com o interesse público.
Aposentadoria: uma esperança que não se sustenta
Outro ponto crítico do estudo é o abismo entre expectativa e realidade na aposentadoria. Entre os que ainda não se aposentaram, mais da metade acredita que não dependerá do INSS no futuro. No entanto, entre os já aposentados, 88% dependem da previdência pública como principal ou única fonte de renda.
Esse descompasso escancara a falta de planejamento de longo prazo. Pior: caiu o número de pessoas que pretendem guardar dinheiro para se aposentar, de 58% em 2023 para 55% agora. Um terço sequer cogita o assunto. E isso num país em que a pirâmide etária está envelhecendo e a previdência enfrenta desafios cada vez maiores de sustentabilidade.
Estresse financeiro: o sintoma mais gritante
Não é coincidência que a palavra mais citada ao se falar de dinheiro seja “preocupação”. A ANBIMA desenvolveu um índice de estresse financeiro, cruzando percepção com realidade, e os números são claros. 51% se dizem estressados, e essa sensação encontra respaldo nos dados objetivos. Apenas 5% dos brasileiros vivem com baixo estresse financeiro, enquanto 22% acreditam estar tranquilos, mesmo sem estarem.
Esse estresse é mais comum entre os endividados, os pais e aqueles que estão fora do mercado de trabalho. Mas mesmo quem tem renda e emprego sente a pressão. O Brasil vive hoje uma sobrecarga invisível, feita de boletos, incertezas e promessas não cumpridas, que se manifesta no sono ruim, nos conflitos familiares e até na saúde física.
Quatro perfis, um país dividido
Para além das médias, o estudo identificou quatro perfis distintos:
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Sem reservas (52%): não guardam, nem investem;
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Economizam, mas não investem (12%);
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Caderneta (20%): só aplicam na poupança;
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Diversifica (17%): investem em múltiplos produtos.
O grupo “Diversifica” é o que mais planeja, menos depende do INSS e apresenta melhor índice de saúde financeira. Mas representa uma minoria, concentrada entre homens, jovens e pessoas das classes A e B. Ou seja, o avanço ainda é desigual e frágil.
Como seguimos daqui?
O Brasil precisa encarar a realidade de frente. O crescimento das apostas, a queda da poupança, o despreparo para a aposentadoria e o aumento do estresse financeiro são sintomas de uma sociedade que precisa reaprender a lidar com o dinheiro. De forma racional, crítica e conectada com o futuro.
Não se trata de culpar o indivíduo. Trata-se de reconhecer que, em um ambiente de desigualdade e desinformação, esperar escolhas racionais sem oferecer estrutura é tão ingênuo quanto pedir que alguém economize onde não há o que cortar.
Precisamos de políticas públicas, educação de qualidade, regulação de práticas nocivas e uma imprensa comprometida com o interesse coletivo. E não apenas com o orçamento publicitário do mês. Só assim, talvez, possamos escrever um novo retrato do investidor brasileiro. Mais consciente. Mais equilibrado. E menos estressado.