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Nos últimos anos, os chamados mercados de previsão (prediction markets), no jargão econômico, deixaram de ser curiosidade acadêmica para se tornarem instrumentos concretos de análise e tomada de decisão. A ideia é simples: criar contratos financeiros cujo valor depende de eventos futuros, permitindo que os preços reflitam, em tempo real, a probabilidade percebida de cada resultado.
À primeira vista, pode parecer uma aposta. Mas, na prática, trata-se de algo fundamentalmente diferente: um mecanismo de inteligência coletiva, capaz de transformar expectativas difusas em métricas objetivas.
No universo tradicional das apostas, existe uma “casa” que define as odds, cobra margem e, estatisticamente, sempre ganha no agregado. O propósito é o entretenimento.
Nos mercados de previsão, a lógica é outra:
- não existe “casa” contra o usuário, participantes negociam entre si;
- os preços refletem probabilidades, não palpites emocionais;
- o objetivo não é diversão, mas sim produzir informação útil para empresas, investidores e instituições;
- o resultado dessa negociação é um indicador público, usado como referência para decisões reais.
Esse é o ponto que economistas como Friedrich Hayek e Kenneth Arrow destacaram décadas atrás: preços de mercado revelam conhecimento disperso que nenhuma consultoria ou especialista isolado conseguiria agregar. Prediction markets apenas aplicam esse princípio ao domínio das expectativas.
Nos Estados Unidos, plataformas como Kalshi e Polymarket transformaram expectativas em números claros. A Kalshi opera sob licenças equivalentes às de bolsas de derivativos, negociando contratos sobre inflação, desemprego e temas macroeconômicos. A Polymarket, baseada em blockchain, agrega projeções sobre política, tecnologia e cultura, consolidando dados de centenas de milhares de participantes.
O crescimento desses mercados impressiona. Entre janeiro e outubro de 2025, plataformas de previsão superaram a marca de US$ 27,9 bilhões em volume negociado, chegando a mais de US$ 2 bilhões por semana em momentos de pico. Esses números não refletem entretenimento, mas a força de um novo tipo de infraestrutura de informação.
A literatura acadêmica traz evidências consistentes. Nos Estados Unidos, o Iowa Electronic Markets, mantido pela Universidade de Iowa, mostrou que, em sucessivas eleições presidenciais, os mercados de previsão tiveram erros menores do que pesquisas tradicionais na reta final. Em empresas como Hewlett-Packard e Siemens, mercados internos usados para prever prazos de projetos ou vendas superaram, em precisão, as projeções oficiais da própria companhia.
O motivo é direto: prediction markets conseguem capturar sinais dispersos, impressões de profissionais, informações locais, nuances percebidas no dia a dia, e convertê-los em uma única métrica.
Na política, os contratos ajustam seu preço conforme surgem debates, pesquisas e eventos relevantes. Isso revela, minuto a minuto, como diferentes atores interpretam a evolução do processo eleitoral. Não se trata apenas de prever quem vai vencer, mas de entender como a narrativa pública altera expectativas.
Na economia, contratos ligados a inflação, taxa de desemprego ou decisões de bancos centrais são usados por empresas e gestores para ajustar portfólios, revisar projeções e construir cenários. Afinal, um número derivado do comportamento de milhares de agentes expostos a risco é, muitas vezes, mais informativo do que uma estimativa isolada.
No entretenimento, previsão de bilheterias, prêmios e audiências já mostrou desempenho notável. Um mercado que negocia “probabilidade de um filme ultrapassar determinado público” funciona como termômetro coletivo para produtores e distribuidores.
Apesar da associação intuitiva ao universo das apostas, nas principais economias os mercados de previsão são tratados como infraestruturas financeiras formais, com regulação clara e requisitos robustos.
Nos Estados Unidos, plataformas como a Kalshi operam sob arcabouço regulatório equivalente ao de bolsas de derivativos, com governança, auditoria, requisitos de capital, processos rígidos de KYC, monitoramento e mecanismos de supervisão contínua. Já modelos baseados em blockchain, como a Polymarket, foram enquadrados dentro das normas federais de transparência e registro exigidas para plataformas que negociam contratos vinculados a eventos.
Em outras palavras: prediction markets não são jogos. São mercados estruturados, com:
- contratos padronizados e regras claras;
- identificação obrigatória de todos os participantes;
- compliance, auditoria e supervisão comparáveis às de instituições financeiras;
- foco em informação, não entretenimento.
É justamente essa regulação clara que permitiu que os mercados de previsão crescessem com credibilidade institucional, atraíssem grandes investidores e fossem adotados por empresas, universidades e gestores como ferramentas úteis de análise.
No Brasil, a discussão ainda está no início, mas a referência internacional indica o caminho natural: modelos desse tipo tendem a ser enquadrados dentro do ecossistema de valores mobiliários, crowdfunding regulado e plataformas supervisionadas, com KYC obrigatório, regras de governança, transparência e proteção ao investidor.
Esse enquadramento abre portas para que prediction markets sejam utilizados aqui como já são lá fora: instrumentos para reduzir incertezas, melhorar decisões e gerar inteligência coletiva em temas que vão de economia e política a ciência, cultura e tecnologia.
Do entretenimento à política, passando pela economia e pelas empresas, os mercados de previsão estão se consolidando como uma revolução silenciosa na forma de tomar decisões.
Uma revolução que transforma expectativas em dados, opiniões em probabilidade e incerteza em informação acionável.
