Inflação adiada
Bem acima das projeções, o IPCA de maio, divulgado na semana passada, foi realmente pesado...
Abrimos esta semana com uma revisão maiúscula nas expectativas do mercado para a inflação oficial: de 8,46% para 8,79% (!).
E contando... tratou-se simplesmente da nona semana seguida de piora nas projeções.
Nem o aprofundamento da recessão e nem as apostas de juros elevados seguram a inflação.
Como explicar isso?
Simples:
E, como um passe de mágica, inflação na casa de 9% torna-se consenso.
Depois nós que somos loucos, e o mercado é o pessimista por natureza...
Déjà vu
Quantas vezes você já viu a seguinte manchete?
Essa é de hoje.
E aí, agora vai?
A rigor, já foi.
Tire o seu da reta (mas como?)
A Grécia deu calote em seus credores no último dia 5, quando não honrou um pagamento de dívida sob a desculpa esfarrapada de que, como haveria outros vencimentos ao longo de junho, concentraria todos os pagamentos no fim do mês, por motivos práticos (e oportunistas).
A Grécia possui cerca de 90 milhões de euros em caixa e mais de 1 bilhão de dívida vencendo nos próximos dias. Não possui mais a paciência e tampouco a credibilidade junto ao FMI e demais países da Zona do Euro. A única vantagem da Grécia ser irrelevante é que, em um dia como este, não precisamos gastar verbo dissecando as ações mais impactadas...
Aquelas que, de um universo de mais de 400 ações listadas na BM&F Bovespa, mais ganham ou perdem com o calote iminente e a potencial exclusão da Grécia da Zona do Euro.
Quando o risco é sistêmico, pode não ter impacto específico sobre nenhuma ação brasileira, mas capricha no impacto geral.
Sobrepeso indiano
Qualquer financista que se preze conhece Damodaran. O indiano, professor da Universidade de Nova York e sumidade no valuation de companhias, afirmou o seguinte:
“A Petrobras (SA:PETR4) já é a companhia do setor de óleo e gás mais alavancada do mundo, mais endividada do que qualquer outra do setor, e o que eles estão fazendo? Emitindo mais dívida. O que a Petrobras precisa fazer é aumentar o capital da companhia e não reduzi-lo com mais dívida. Eu nem vou comentar se um bônus de 100 anos faz sentido. Na verdade não faz sentido emitir nenhum [tipo de] dívida no momento. Eles precisam descobrir como trazer a alavancagem para baixo. É muita dívida e enquanto esse problema estiver sobre a cabeça da companhia não é possível fazer nada para sair dessa bagunça”
Sem mais.
Note que algo óbvio, e não tem rigorosamente nada de novo em relação ao que falamos há dois anos. Mas, na boca do Damodaran, talvez ganhe um formalismo útil.
BRexit
Outra constatação óbvia avalizada pelo guru do valuation: “o mercado já rebaixou o Brasil e quando for anunciado será notícia velha”.
Vejamos...
A evolução ano contra ano do Credit Default Swap (CDS), o seguro contra calote brasileiro:
Assim como o descalabro da inflação brasileira ou a exclusão da Grécia da Zona do Euro, adiadas e/ou mascaradas, o rebaixamento do rating brasileiro é um risco iminente, sistêmico, e deveras relevante.
A Croácia, por exemplo, carrega classificação de risco “junk”, o grau especulativo.
Agora, veja a relação do seguro contra calote croata e brasileiro:
Não estamos lá muito bem, convenhamos, mas às vezes ainda ganhamos da Croácia.
Até breve!
Este é um M5M de despedida. A partir de amanhã ficarei duas semanas fora.
Durante esse período, o M5M será oxigenado pelas ideias de meu alter ego, Rodolfo Amstalden.
Fosse somente pelo nome, você provavelmente nem notaria diferença.