A tarefa do Federal Reserve nunca é simples, mas o cenário atual impõe desafios ainda mais complexos.
Além dos obstáculos habituais que dificultam a condução da política monetária em tempo real, o Federal Reserve precisa considerar os possíveis impactos econômicos de uma série de medidas impostas pela Casa Branca. Ainda não está claro como os planos do presidente Trump podem ter alterado as projeções do Fed, mas economistas do setor privado já avaliam os desdobramentos desse cenário.
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Torsten Sløk, economista-chefe da Apollo, destaca que, embora os dados econômicos dos EUA continuem robustos, começam a surgir preocupações com os riscos negativos para a economia e os mercados. Entre os fatores que podem gerar instabilidade, ele aponta:
- o efeito das demissões e cortes de contratos da DOGE sobre os pedidos de seguro-desemprego; e
- a persistente incerteza política, que pode afetar decisões de investimento em capital e contratações.
Já Stephanie Roth, economista-chefe da Wolfe Research, vê com menos preocupação os cortes em massa de funcionários federais, que parecem ser um dos objetivos da DOGE. Para ela, esse movimento não teria força suficiente para levar a economia a uma recessão.
Enquanto isso, o presidente Trump reafirmou ontem que seguirá adiante com a imposição de tarifas sobre Canadá e México a partir da próxima semana, declarando: “As tarifas seguirão conforme o cronograma.”
O impacto dessas tarifas sobre a inflação, mesmo que temporário, segue como um fator relevante. Ainda não há consenso sobre qual será a reação do Fed ou se ele reagirá de imediato, mas, por ora, as expectativas apontam para a manutenção da taxa-alvo na próxima reunião do FOMC, em 19 de março, de acordo com os contratos futuros de Fed funds.
O rendimento dos Treasuries de 2 anos, um dos indicadores mais sensíveis à política monetária, sugere que, no momento, a política atual do Fed está relativamente alinhada com as expectativas. Ontem (24 de fevereiro), essa taxa caiu para 4,18%, atingindo o menor nível desde dezembro.
Essa recente queda também fez com que o rendimento dos Treasuries de 2 anos voltasse a operar abaixo da taxa efetiva mediana dos Fed funds, o que indica que o mercado começa a precificar um tom mais moderado para a política monetária do banco central.
Um modelo simples que avalia a atual postura do Fed, considerando a inflação ao consumidor e a taxa de desemprego, sugere que a política monetária ainda mantém um viés levemente contracionista, pelo menos até janeiro.
A grande questão é se o Fed considera essa abordagem adequada para os próximos meses. Uma avaliação mais concreta virá na sexta-feira, quando o governo divulgará os dados de inflação PCE referentes a janeiro. Diferente do relatório anterior do CPI, que mostrou uma inflação mais resistente, economistas preveem números mais amenos desta vez.
No entanto, os dados de janeiro já podem estar defasados em um cenário de rápidas mudanças na política econômica da Casa Branca. O desafio para o Fed é que os impactos das tarifas e das decisões da DOGE começarão a se manifestar nos próximos meses, enquanto os efeitos da política monetária ainda operam com defasagens longas e variáveis.
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