Números são bons indicadores de realidades que por vezes são muito contestadas, pois como diz o consenso popular “números são frios e não tem amigos”, portanto revelam contextos sem agregar qualquer parcialidade.
Já tem sido dito por jornais e organismos de reputação internacional como o FED americano e o FMI que há um grupo de cinco países emergentes entre todos os demais que estão em posição mais frágil e vulnerável neste momento, e neste grupo está o Brasil.
Esta conceituação tem sido sistematicamente contestada pelo governo brasileiro de forma veemente, tendo como bandeira maior o fato do país deter reservas cambiais de US$ 380,0 Bi e pelo entendimento dos gestores da política monetária do país de que a inflação está sob controle, embora muito próxima do limite alto da meta e haja preços relevantes da economia represados para não impactar na inflação, etc, etc., procurando sempre atribuir a causas externas os problemas que afligem o país.
Interessante e oportuna matéria do jornal VALOR propagada na edição de ontem, confrontou indicadores externos de países emergentes latinos americanos, análise e opiniões de economistas e analistas em abordagem objetiva a avaliação do prêmio de risco brasileiro, que tem piorado em relação à América Latina com base nos indicadores do CDS e também nos ratings atribuídos por agências de rating.
Destaca que até 2012 os prêmios de risco definidos a partir da medição pelos CDS (Credit Default Swap), considerado mundialmente como indicador adequado já que tem sua formação a partir do mercado, as taxas atribuídas ao prêmio de risco brasileiro descolaram da média dos seus principais vizinhos e já é dez vezes maior do que era em 2010. Segundo a matéria, este fato é atribuído por economistas e analistas a diferenças de conduta da gestão macroeconômica, pois enquanto alguns países da América Latina reforçaram seus fundamentos por meio de reformas estruturais nos últimos anos, o Brasil trilhou o caminho oposto, apresentando piora nas contas públicas e no comprometimento com a meta de inflação.
Evidencia a matéria que o CDS com vencimento 5 anos do Brasil era negociado na quarta feira com spread de 166 pontos base, bem acima de Chile (77), Colômbia (93), México (86) e Peru (94) e relembra que em 2010 a diferença entre a média do CDS Brasil e destes países era em torno de 7 pontos base e que agora está em 72, tendo havido um pico de 99 ao final do ano passado.
E a matéria vai além adentrando a comparação dos ratings de crédito, evidenciando que enquanto países como Colômbia, Chile, Peru subiram na escala de qualidade de risco de crédito neste ano, o Brasil foi rebaixado. O rating do Brasil é inferior ao do Chile, Colômbia, Peru e México sob a avaliação a Standard & Poor´s.
Destaca ainda, que na última emissão de bônus do Tesouro com papéis vincendos em 2045, o spread foi de 187,5 pontos, resultando em cupom de 5% aa, foi considerado bastante satisfatório pelo governo. Contudo, com base na mesma data de colocação dos papéis brasileiros, no mercado secundário bônus no mesmo prazo do México pagavam premio de 124,0 pontos base, do Peru 150 e da Colômbia 144.
A matéria evidencia números gerados pelo mercado internacional com total transparência, e os analistas e economistas apontam que é preciso promover algum tipo de choque, mostrar que estão reduzindo a contabilidade criativa, que as contas não têm maquiagem.
Para este ano já há fortes sinalizações de que a criatividade para atenuar performances não satisfatórias das contas não prescindirá de ocorrências pontuais, também denominadas pelo mercado como criativas.
O que fica evidente com os dados apontados na matéria é que o mundo global financeiro nos observa detidamente, por vezes com muito maior acuidade do que se possa imaginar e que os deslizes que ocorrem na nossa política fiscal são rigorosamente observados, isto também obviamente vale para a inflação, baixo crescimento, problemas estruturais, etc.
A política fiscal deste ano, a despeito de revisão da meta, emite sinais de que não terá condições de atingir a meta comprometida, embora seja notório que o governo busca receitas pontuais para atenuar a magnitude da defasagem. A política fiscal é um dado muito observado pelas empresas de rating, não sendo possível descartar que o fato possa sugerir reavaliações do rating brasileiro.
O câmbio é a rigor, o primeiro catalisador deste contexto menos favorável e repercute isto na formação do preço da moeda americana.
Então, quando colocamos a perspectiva de curto/curtíssimo prazo de volatilidade mais intensa no câmbio com viés de alta do preço da moeda americana, consequente da intensificação de saída de recursos especulativos adentrados principalmente no 1º trimestre do ano, com grande possibilidade de forte incremento adicional nas saídas de recursos não rigorosamente especulativos face à eventual sinalização pelo FED de mudança de política monetária nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que pode ocorrer retração nos fluxos de ingressos considerando-se que as captações externas empresariais foram antecipadas e que o volume de ingressos de IED´s deve sofrer arrefecimento neste 2º semestre que envolve eleição presidencial, consequente da atitude prudencial dos investidores, não consideramos que esta seja uma visão negativista, mas tão somente realista e factível.
A tendência de fluxo cambial negativo em expansão parece bem delineada, portanto tudo leva a crer que a liquidez no mercado à vista poderá ficar estreita e ainda não há clareza sobre quem vai gerar a liquidez faltante, bancos com ampliação das posições vendidas num ambiente adverso de fluxos para o país ou o BC fazendo leilões de divisas à vista fazendo uso das reservas cambiais.
Temos dúvidas quanto à eficácia das intervenções do BC com “swaps cambiais” quando a demanda acentuar a transição do mercado futuro para o mercado à vista, visto que será procura por divisas efetivas e disponíveis para remessas ao exterior e em grau menor por proteção para o que se prestam os “swaps cambiais”, que poderá advir dos bancos para “hedge” da ampliação de suas posições vendidas, caso sejam eles os geradores da liquidez.
Pressão sobre o preço da moeda americana tende a se revelar também como pressão sobre a inflação, e isto coloca em questão a manutenção da taxa SELIC ou sua elevação, contexto um pouco diferente dos que imaginam redução desta taxa.
Vemos um cenário de alta complexidade envolvendo câmbio, geração de liquidez no mercado de câmbio à vista, juro e inflação.
Consideramos muito desafiadora a missão do BC de comprimir a taxa cambial para que não expanda seus efeitos na economia num ambiente de fluxo desfavorável e, por conseguinte na inflação, até porque vender reservas neste momento, que pode parecer lógico a muitos, não seria conveniente para não piorar as avaliações externas, que como destacou a matéria do jornal Valor, já são bastante desfavoráveis.
Nossa convicção é de tendência de crescimento da volatilidade no mercado de câmbio, com o preço da moeda americana com viés de alta.