O Fed passou a regular o Bitcoin

Publicado 29.11.2025, 12:35

Em 2026, pelo menos do ponto de vista de preço, liquidez e humor de mercado, a movimentação do Bitcoin ficou no colo do Banco Central dos EUA e da sua política monetária. E, aqui, vou te mostrar os motivos:

1. Liquidez: o Fed é a torneira global de dólares – e o Bitcoin bebe dessa água.

Goste o mercado ou não, o Bitcoin é precificado em dólar e o ecossistema cripto é, na prática, dolarizado. O próprio Federal Reserve admite que cerca de 99% da capitalização de mercado das stablecoins é lastreada em dólar – o que significa que a maior parte das transações em cripto roda sob o guarda-chuva da moeda americana.

Quando o Fed aperta as condições financeiras – juros altos, redução de balanço, drenagem de liquidez – o dólar escasseia e fica mais caro. Estudos de casas como Markets.com mostram que esse “squeeze” de liquidez em dólar tem impacto direto na profundidade de mercado e na capacidade de compra dos investidores em Bitcoin. Em momentos de aperto, some dinheiro novo, saem alavancagens e o BTC fica muito mais vulnerável a quedas rápidas – não à toa caiu dos US$ 120 mil para bem próximo aos US$ 80 mil.

2. Juros, custo de oportunidade e “desconto regulatório” no preço do BTC.

A segunda alavanca é a taxa de juros. Bitcoin não paga cupom, dividendo ou aluguel. Num mundo de juros reais altos, o investidor olha para Treasuries e pensa: “por que correr todo esse risco se o governo dos EUA me paga bem para ficar em paz?”.

Pesquisas recentes da MDPI mostram que choques de aperto monetário do Fed (medidos, por exemplo, pelo movimento dos Treasuries na reunião do FOMC) geram quedas estatisticamente robustas em Bitcoin – um aperto surpresa de 1 ponto-base na curva de dois anos está associado a cerca de 0,25% de queda no preço do BTC, por exemplo.

Juros altos enxugam liquidez, aumentam o retorno dos ativos seguros e reduzem o apetite por risco e por cripto; cortes de juros, ao contrário, tendem a liberar capital para ativos de risco e favorecer ciclos de alta do Bitcoin – será que vamos ter isso em Dezembro?

Em 2026, se o Fed mantiver um juro real relativamente elevado, o Bitcoin carrega um “desconto regulatório implícito”: parte do seu preço reflete não só a tecnologia ou o halving, mas o fato de competir com um título público bem pago.

3. Força do dólar: quando o dólar sobe, o Bitcoin ajoelha.

O terceiro eixo é o câmbio. Quando o dólar se fortalece globalmente, não é só a bolsa emergente que sofre: o Bitcoin também tende a patinar. Análises recentes sobre o “liquidity squeeze” em dólar mostram que períodos de fortalecimento do dólar andam de mãos dadas com menor apetite por risco e compressão de preços de ativos alternativos, cripto incluída.

Dois efeitos aparecem ao mesmo tempo:

Investidor fora dos EUA: se o dólar se valoriza, cada Satoshi fica mais caro na moeda local. Comprar BTC significa, antes de mais nada, pagar mais caro por dólar.

Gestor global: um dólar forte geralmente acompanha um cenário de cautela macro – desemprego, inflação incerta, tensões geopolíticas. Em vez de ampliar risco, o gestor se protege em treasuries e caixa.

Tanto é que quando o mercado passa a precificar cortes de juros e um dólar um pouco mais fraco, o Bitcoin costuma reagir rapidamente, como se estivesse permanentemente “de olho” na direção do DXY.

4. Apetite por risco, ETFs e o Fed como maestro do “risk-on / risk-off”

O quarto canal é psicológico, mas mensurável. A narrativa de que o Bitcoin é um “ativo descorrelacionado” cedeu espaço a uma realidade menos romântica e “revolucionária”: hoje, ele dança ao som da mesma música que anima (ou assusta) as big techs da Nasdaq. E viradas de expectativa sobre o Fed – mais cortes, menos cortes, pausa mais longa – têm provocado movimentos quase sincronizados entre ações de tecnologia e Bitcoin.

Além disso, com os ETFs de Bitcoin spot, o ativo foi puxado de vez para o universo “tradicional”: gestores ajustam exposição a BTC junto com ações, crédito high-yield e outros ativos de risco. Se a ata do Fed soa mais dura, eles cortam risco; se o discurso soa mais suave, reabrem posição.

Pesquisas empíricas sobre volatilidade intradiária em Bitcoin e Ethereum mostram que notícias de política monetária dos EUA são, consistentemente, um dos fatores que mais mexem com a volatilidade cripto – antes, durante e depois dos anúncios. Ou seja: o Fed não só influencia o nível de preços, como pauta o “batimento cardíaco” das oscilações de curto prazo.

5. Calendário do FOMC: a “agenda regulatória” informal do Bitcoin em 2026.

Por fim, há um componente quase institucional. O mercado já trata o calendário do Fed até 2027 como peça central para projetar liquidez em DeFi, rendimento em stablecoins e ciclos de risco em cripto. O cronograma oficial de reuniões do FOMC para 2026 virou um mapa de datas de volatilidade esperada para Bitcoin. Não obstante, é fácil vincular a recente queda de mais de 30% do BTC à combinação de três fatores: deleveraging, tom mais duro do Fed e sell-off em tecnologia. Quando esses elementos se alinham, o que cai não é só o preço – é a narrativa de “porto seguro” cripto.

Na prática, cada coletiva de Jerome Powell, cada atualização de “dot plot” e cada frase sobre “higher for longer” funciona como uma espécie de circular não escrita ao mercado de Bitcoin: mais ou menos liquidez, mais ou menos risco, mais ou menos fôlego para o próximo rali.

Então o Fed “regula” o Bitcoin?

Do ponto de vista jurídico, não: o Fed não define o que é security, não aprova ETF, não enquadra exchange. Esse papel é de SEC, CFTC, reguladores bancários e dos legisladores.

Mas do ponto de vista econômico, entrando em 2026, o Fed exerce uma regulação de fato sobre o Bitcoin por cinco vias principais:

1 - Decide quanta liquidez em dólar existe para alimentar (ou secar) o ecossistema cripto.

2 - Define o custo de oportunidade – se vale mais a pena correr risco em BTC ou sentar em Treasuries bem pagos.

3 - Influencia a força do dólar, que aperta ou alivia o preço do BTC para o resto do mundo.

4 - Orquestra o apetite por risco global, impactando fluxos para ETFs e a correlação do Bitcoin com outros ativos.

5 - Marca, no calendário, os dias em que a volatilidade de Bitcoin provavelmente vai explodir.

Em outras palavras: o Bitcoin continua descentralizado no código, mas profundamente centralizado em termos de liquidez e narrativa. Enquanto o dólar for o eixo do sistema financeiro e o Fed controlar o ritmo desse dólar, 2026 tende a reforçar uma tese não tão prazerosa para os maximalistas: o “regulador invisível” do Bitcoin se reúne oito vezes por ano em Washington – e atende pelo nome de Federal Reserve. Ah, 2027 começa em dezembro de 2026, se é que você me entende...

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