Stablecoins: Uma revolução silenciosa

Publicado 31.03.2025, 13:30

O mercado de stablecoins, principalmente das lastreadas em dólar americano, expandiu-se enormemente nos últimos anos, consolidando-se como um componente cada vez mais relevante do sistema financeiro global.

De um volume total de aproximadamente US$ 120 bilhões em circulação no início de 2023, esse mercado mais que dobrou, atingindo a marca de US$ 215 bilhões no primeiro trimestre de 2025.

As stablecoins deixaram de ser ferramentas auxiliares para traders de criptoativos e se tornaram instrumentos financeiros amplamente utilizados para transferências de valor reais no sistema econômico como um todo.

O Tether (USDT), com aproximadamente US$ 140 bilhões em circulação, e o USD Coin (USDC), com cerca de US$ 55 bilhões, representam cerca de 90% do mercado total de stablecoins.

No entanto, esta concentração duopolista começou a mostrar sinais de diluição gradual com novos players emergentes, destacando-se o PayPal (NASDAQ:PYPL) USD (PYUSD), lançado no final de 2023; o First Digital USD (FDUSD), com origem em Hong Kong; o Agora USD (AUSD); o Ethena’s USDe; além dos já estabelecidos TrueUSD (TUSD) e DAI.

Adoção e Uso

A adoção das stablecoins demonstra crescimento consistente, com mais de 32 milhões de endereços únicos tendo realizado transações até janeiro de 2025; o dobro do número registrado apenas dois anos antes.

O volume de transações on-chain atingiu US$ 5,6 trilhões em 2024, representando aproximadamente 40% do volume total processado pela Visa no mesmo período.

Entretanto, parte significativa da atividade com stablecoins ocorre off-chain, em exchanges centralizadas e carteiras custodiais. Estes volumes, não registrados diretamente nas blockchains, expandem consideravelmente o impacto real.

Na Nigéria, 85% das transferências com stablecoins são inferiores a US$ 1 milhão, indicando forte adoção por usuários de varejo e pequenas empresas que buscam proteção contra a inflação local.

No Brasil, observa-se aumento nas transferências de grande porte (acima de US$ 1 milhão), sinalizando crescente adoção institucional.

A expansão da distribuição de carteiras para além das exchanges tradicionais é outro indicador relevante. Atualmente, milhões de carteiras não vinculadas a exchanges detêm stablecoins, incluindo carteiras de comerciantes, plataformas de poupança e tesouraria de empresas.

Tratando-se de empresas, as parcerias entre emissores de stablecoins e instituições financeiras tradicionais ganharam força significativa entre 2023 e 2025.

Estas colaborações representam um marco importante na legitimação das stablecoins perante o mercado tradicional.

Empresas agora utilizam stablecoins para prover liquidez e transacionar, seja global ou localmente, eliminando atrasos e custos associados às transferências bancárias internacionais.

Trabalhadores migrantes as adotam para envio de remessas, enquanto comércios aceitam como meio de pagamento eficiente.

Além da possibilidade de utilizar para dolarizar o patrimônio, fugindo de uma moeda fiduciária que sofre mais com inflação, e até ganhar rendimento passivo (e.g. processos de lending, yield farming etc.).

Desta forma, torna-se perceptível que as stablecoins não são utilizadas apenas como ferramental para adentrar no mercado cripto, mas também como instrumentos financeiros efetivos.

Adoção Institucional

BlackRock (NYSE:BLK), a maior gestora de ativos do mundo, integrou stablecoins em suas operações de tesouraria, sinalizando forte confiança institucional no setor.

Outro exemplo é a JPM Coin, uma stablecoin corporativa desenvolvida pelo J.P. Morgan para facilitar transações interbancárias e liquidações instantâneas entre clientes institucionais. Ela é restrita a grandes instituições financeiras, processando mais de US$ 1 bilhão em transações diárias e focando em eficiência, segurança e redução de custos em operações como pagamentos transfronteiriços e liquidação de títulos.

Paralelamente, Visa implementou capacidade de liquidação em USDC e vem conduzindo pilotos para integração com seus sistemas de pagamento tradicionais.

A aquisição da Bridge pela Stripe por US$ 1,1 bilhão em 2024 representa um dos maiores movimentos corporativos no setor. Esta aquisição visa expandir infraestrutura de pagamentos baseada em stablecoins e demonstra o comprometimento de empresas estabelecidas com a tecnologia.

Bancos tradicionais, inicialmente resistentes, estabelecem agora parcerias com emissores de stablecoins. O BNY Mellon expandiu sua colaboração com a Circle (USDC), oferecendo serviços de custódia e facilitando liquidações diretas para clientes institucionais.

Corporações multinacionais adotam stablecoins para gestão de tesouraria e liquidez internacional. A velocidade de liquidação e operação 24/7 elimina limitações bancárias tradicionais como horários restritos e feriados, beneficiando empresas com operações globais.

A liquidez transfronteiriça representa uma das principais aplicações institucionais. Empresas utilizam stablecoins para transferir recursos entre subsidiárias em diferentes países sem os atrasos e custos associados aos sistemas bancários convencionais.

Entretanto, barreiras regulatórias permanecem como desafio central para adoção institucional completa. A crescente clareza regulatória em jurisdições-chave como Estados Unidos, Singapura e União Europeia está acelerando a confiança e implementação corporativa.

O Futuro das Stablecoins

As stablecoins protagonizaram uma revolução silenciosa no sistema financeiro global. Partindo de um nicho específico no mercado cripto, estas moedas digitais evoluíram para um componente significativo das finanças globais.

O impacto disruptivo manifesta-se principalmente na redefinição das transferências de valor internacionais. Stablecoins oferecem liquidações quase instantâneas a custos significativamente inferiores aos sistemas bancários tradicionais.

A democratização do acesso ao dólar americano representa uma das consequências mais profundas desta tecnologia. Em economias com alta inflação e moedas instáveis, como Venezuela, Argentina e Nigéria, cidadãos comuns agora acessam a estabilidade da moeda americana sem intermediários bancários tradicionais.

A convergência entre o mercado financeiro tradicional e o ecossistema cripto acelera-se através das stablecoins.

O futuro próximo promete transformações ainda mais profundas com possível integração ou competição entre stablecoins privadas e CBDCs (Moedas Digitais de Bancos Centrais).

A consolidação regulatória e tecnológica deverá impulsionar a próxima onda de adoção institucional, posicionando as stablecoins como infraestrutura central do sistema financeiro do século XXI e integrando ainda mais o mercado de criptoativos ao mercado financeiro tradicional.



Fontes:

Visa On-Chain Analytics

Dune Analytics

Artemis

Últimos comentários

Carregando o próximo artigo...
Instale nossos aplicativos
Divulgação de riscos: Negociar instrumentos financeiros e/ou criptomoedas envolve riscos elevados, inclusive o risco de perder parte ou todo o valor do investimento, e pode não ser algo indicado e apropriado a todos os investidores. Os preços das criptomoedas são extremamente voláteis e podem ser afetados por fatores externos, como eventos financeiros, regulatórios ou políticos. Negociar com margem aumenta os riscos financeiros.
Antes de decidir operar e negociar instrumentos financeiros ou criptomoedas, você deve se informar completamente sobre os riscos e custos associados a operações e negociações nos mercados financeiros, considerar cuidadosamente seus objetivos de investimento, nível de experiência e apetite de risco; além disso, recomenda-se procurar orientação e conselhos profissionais quando necessário.
A Fusion Media gostaria de lembrar que os dados contidos nesse site não são necessariamente precisos ou atualizados em tempo real. Os dados e preços disponíveis no site não são necessariamente fornecidos por qualquer mercado ou bolsa de valores, mas sim por market makers e, por isso, os preços podem não ser exatos e podem diferir dos preços reais em qualquer mercado, o que significa que são inapropriados para fins de uso em negociações e operações financeiras. A Fusion Media e quaisquer outros colaboradores/partes fornecedoras de conteúdo não são responsáveis por quaisquer perdas e danos financeiros ou em negociações sofridas como resultado da utilização das informações contidas nesse site.
É proibido utilizar, armazenar, reproduzir, exibir, modificar, transmitir ou distribuir os dados contidos nesse site sem permissão explícita prévia por escrito da Fusion Media e/ou de colaboradores/partes fornecedoras de conteúdo. Todos os direitos de propriedade intelectual são reservados aos colaboradores/partes fornecedoras de conteúdo e/ou bolsas de valores que fornecem os dados contidos nesse site.
A Fusion Media pode ser compensada pelos anunciantes que aparecem no site com base na interação dos usuários do site com os anúncios publicitários ou entidades anunciantes.
A versão em inglês deste acordo é a versão principal, a qual prevalece sempre que houver alguma discrepância entre a versão em inglês e a versão em português.
© 2007-2025 - Fusion Media Limited. Todos os direitos reservados.