Maioria das tarifas de Trump não é legal, decide tribunal de recursos dos EUA
Por Roberto Samora
SÃO PAULO (Reuters) - As tarifas mais elevadas dos Estados Unidos contra o Brasil deverão levar a um rearranjo global nas exportações de carne bovina, que inclui maiores embarques para os norte-americanos de países como o México e Austrália, de acordo com especialistas.
Esse movimento, por outro lado, cria oportunidades para o Brasil, maior exportador global de carne bovina, amenizando o impacto de perdas de vendas brasileiras para os EUA, depois que o governo Donald Trump anunciou tarifas adicionais de 50% para o país sul-americano.
As taxas de Trump podem atrair mais negócios entre as duas maiores economias da América Latina, caso o México amplie exportações aos EUA, segundo especialistas.
"É bem provável que países que podem triangular a carne brasileira aumentem as compras (do Brasil), a exemplo do México", disse o diretor da consultoria especializada em pecuária Athenagro, Maurício Palma Nogueira, à Reuters.
O Brasil vem se tornando desde 2023 um fornecedor importante para o México -- em agosto, os mexicanos assumiram a segunda posição no ranking dos importadores da carne bovina brasileira, superando os EUA, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pela associação do setor Abiec.
"Se o México começa a mandar carne para os EUA, vai ter de comprar de alguém, vai ter que comprar daqui", acrescentou o consultor, destacando que o Brasil já vinha ampliando embarques aos mexicanos antes das tarifas.
Ele citou ainda que a Argentina seria outra candidata a eventualmente fazer este mesmo movimento, por conta das tarifas maiores aos brasileiros -- a carne bovina do Brasil já pagava uma taxa de 26,4% fora de uma cota isenta.
"O México comprou do Brasil neste ano o que nunca tinha comprado na história inteira, são alguns países que estão aumentando...", acrescentou Nogueira.
Ele disse ainda que, se a Austrália, importante exportador, deixar de atender alguns mercados para exportar mais aos EUA, o Brasil poderia ocupar o "vácuo" deixado pelas exportações australianas em outros lugares.
Nesta conjuntura, a consultoria não alterou suas projeções de exportações de carne bovina do Brasil em 2025, mesmo diante da imposição de tarifas proibitivas ao comércio com os EUA.
Pelo contrário, diante de um mercado internacional demandado e das opções que podem se abrir ao Brasil, considera até uma avaliação positiva. "O resultado está sendo melhor do que esperado, pode ser que a gente venha a mudar para cima", disse.
Ele disse que sua consultoria projeta, até agora, aumento de 7,5% neste ano nas exportações de carne bovina do Brasil sobre um total de 2,87 milhões de toneladas métricas em 2024. "Para se ter uma ideia, estamos com acumulado de janeiro a julho de aumento de mais de 13%", ressaltou Nogueira.
Esse crescimento e as perspectivas futuras, lembrou o consultor, não teriam acontecido se o Brasil não tivesse aberto mercados nos últimos anos, não apenas no atual governo. O México, por exemplo, passou a comprar carne bovina do Brasil em 2023.
"Tenho convicção absoluta que (abertura de mercado) minimiza em muito os impactos do aumento de tarifas", disse nesta quarta-feira o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que está no México, em missão comercial liderada pelo governo brasileiro.
Questionado pela Reuters sobre a reexportação do México para os EUA, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do ministério, Luis Rua, disse que a oferta do Brasil tem sido importante para o controle da inflação dos preços da carne no país. "Nós mandamos para o México, depois o que o México fará com a carne a gente não sabe exatamente", afirmou nesta quarta-feira.
DEMANDA AQUECIDA, OFERTA RESTRITA
"Esse rearranjo vai ocorrer, é natural que países que não tenham tarifas, que eles realoquem a carne... invariavelmente, esses outros países, se exportarem mais para os EUA, é óbvio que abre brecha para esses países olharem para o Brasil... a China está comprando mais a carne nossa", destacou o especialista do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) Thiago Bernardino de Carvalho.
Ao mesmo tempo, ele disse que no médio e longo prazos, além do rearranjo por conta da tarifa dos EUA, outros fatores devem acabar atraindo mais demanda para o Brasil, como a oferta global apertada de carne, algo já vivenciado no próprio mercado norte-americano, que lida com uma menor disponibilidade de gado.
"No médio e longo prazos, a baixa oferta de carne, de países que estão ofertando para os EUA, vai encarecer o preço, e isso vai gerar uma busca da oferta mais barata que está no Brasil", disse o especialista.
Carvalho disse que países como o Japão, que tradicionalmente compram carne dos EUA, podem passar a olhar o Brasil com maior atenção, e ele citou negociações em andamento para abrir o mercado japonês ao produto brasileiro.
Neste contexto, de uma carne demandada nos mercados local e internacional, Carvalho considera que o cenário é de preços sustentados da carne.
(Por Roberto Samora, com reportagem adicional de Kylie Madry na Cidade do México)