"Tudo está muito caro": bolivianos apertam os cintos com nova realidade inflacionária

Publicado 07.04.2025, 12:06
Atualizado 07.04.2025, 12:10
© Reuters. Angelica Zapata compra tomates em um mercado local em La Paz, Bolívian29/03/2025nREUTERS/Claudia Morales

Por Monica Machicao

LA PAZ (Reuters) - Na cidade montanhosa de La Paz, na Bolívia, a dona de casa Angelica Zapata está se adaptando a uma nova realidade de inflação, conforme os preços sofrem a maior alta em quase duas décadas, impulsionados pela escassez de combustível e dólares no país andino.

O país produtor de gás natural e grãos está enfrentando sua situação econômica mais grave desde a crise financeira global, com as reservas de moeda estrangeira caindo devido à paralisação da produção e das exportações de energia, o que provocou agitação política e protestos.

A escassez de dólares tem sido uma barreira para as importações, aumentando os custos dos agricultores e provocando longas filas para a compra de gasolina e diesel nas bombas. Ela também prejudicou o sistema de subsídios estatais que, durante anos, ajudou a manter os preços dos combustíveis baixos.

"Tudo está tão caro que não sobra dinheiro", disse Zapata em um mercado de alimentos na capital política, La Paz, uma cidade rochosa cercada por picos andinos.

"Eu costumava ir ao mercado com 100 bolivianos (US$ 14,58) e comprar de tudo. Era o suficiente para mais de uma semana. Tenho várias filhas, e o que eu compro não é mais suficiente. No máximo, esses vegetais duram um ou dois dias."

Ela acrescentou que o custo de carnes como boi, frango e porco aumentou ainda mais e que os preços agora estão "altíssimos".

A Bolívia, uma das nações mais pobres da América do Sul, cultiva grande parte de seus próprios produtos e, historicamente, tem um excedente de gás natural, o que mantém os custos de energia baixos. No entanto, os produtores não encontraram novos campos de gás para substituir os que foram esgotados, reduzindo as exportações e uma importante fonte de renda externa.

O partido socialista que domina a política desde 2006 tem subsidiado determinados produtos, mas agora está tendo dificuldades em manter a economia funcionando, prejudicando a popularidade do presidente Luis Arce antes das eleições gerais de agosto.

A taxa de inflação da Bolívia, uma das mais baixas da América Latina na última década, ultrapassou seus pares regionais, como Brasil, México e Peru. Atualmente, está atrás apenas da Argentina e da Venezuela, e até mesmo esses países estão vendo a inflação arrefecer.

A diminuição da produção de gás forçou o país a importar petróleo e gás mais caros, um insumo fundamental para os agricultores e as empresas, o que, por sua vez, elevou outros preços.

"A inflação dos alimentos é de 17%, mas há alimentos que subiram ainda mais significativamente nos últimos meses e no ano passado", disse o economista José Luis Evia, de La Paz, acrescentando que os preços do arroz subiram 58% nos últimos 12 meses, os preços da carne subiram 30% e os preços dos peixes subiram mais de 40%.

'UMA REFEIÇÃO POR DIA'

Na casa de Zapata, a inflação forçou a família a apertar o cinto.

"Fomos forçados a reduzir o consumo de alimentos. Tenho que dar às minhas filhas apenas uma refeição por dia, apenas o almoço, mas não mais o jantar", disse Zapata.

"Muitas famílias com muitos filhos também estão passando por isso. O dinheiro que recebemos não é mais suficiente."

A crise gerou longas filas de combustível, com algumas pessoas pedindo que o governo remova os controles e aumente os subsídios para incentivar mais produção, mesmo que isso signifique que os preços subam ainda mais.

"Gostaria que suspendessem o subsídio ao combustível para que houvesse mais gasolina e pudéssemos parar de esperar nas filas e abastecer normalmente", disse o motorista de táxi Samuel Castillo enquanto fazia fila para comprar gasolina.

O governo da Bolívia não respondeu a um pedido de comentário sobre o que está fazendo para reduzir a inflação. O governo tomou medidas para importar mais combustível, inclusive permitindo que as empresas paguem pelas importações com criptomoedas.

Castillo assumiu trabalhos extras para conseguir pagar as contas.

"Tenho que trabalhar como motorista, como carpinteiro de madeira e alumínio, como pintor. Tenho que trabalhar fazendo um pouco de tudo para ganhar mais dinheiro", disse ele.

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