Sobrecarga na compra de dólar eleva risco de violenta reversão

Publicado 26.09.2022, 16:31
Atualizado 26.09.2022, 16:35
© Reuters. Funcionário de casa de câmbio conta notas de 100 dólares
20/03/2019
REUTERS/Mohamed Abd El Ghany

Por Saqib Iqbal Ahmed

NOVA YORK (Reuters) - Alguns investidores estão cada vez mais preocupados com o risco de a alta meteórica do dólar estar preparando o terreno para uma rápida reversão de posições, o que prejudicaria aqueles que buscaram refúgio na moeda norte-americana nos últimos meses.

Taxas de juros crescentes nos EUA, uma economia norte-americana comparativamente forte e a demanda por proteção contra oscilações selvagens nos preços dos ativos atraíram investidores para o dólar.

O índice da moeda frente a uma cesta de rivais salta 19,2% neste ano e quase 27% desde o fim de 2020.

Alguns investidores temem que as negociações com o dólar tenham se tornado excessivamente exorbitantes, aumentando o risco de uma queda acentuada se a sorte da moeda mudar e investidores tentarem sair de suas posições de uma só vez.

"O posicionamento está sobrecarregado", disse Calvin Tse, chefe de macroestratégia global para as Américas do BNP Paribas (EPA:BNPP). "Se conseguirmos um catalisador, o dólar pode virar, e virar de forma muito agressiva", disse ele.

Especuladores do mercado monetário internacional mantiveram posição líquida comprada em dólar de 10,23 bilhões de dólares na semana encerrada em 20 de setembro. É um número bem abaixo do pico recente de 20 bilhões de dólares em julho, mas marca a terceira sequência mais longa desde 1999 em que operadores mantêm posições de alta do dólar, com 62 semanas consecutivas nessa direção.

Exceto um breve período de incerteza relacionada à pandemia, amplos dados de posicionamento líquido no mercado de opções desde 2014 mostram que as posições compradas em dólares estão em seu patamar mais esticado de todos os tempos, de acordo com o Morgan Stanley (NYSE:MS).

Cerca de 56% dos participantes da pesquisa global do BofA (NYSE:BAC) com gestores de fundos em setembro citaram a compra de dólar como a "negociação mais sobrecarregada", terceiro mês consecutivo em que o dólar ocupou essa posição na pesquisa.

Investidores podem já ter tido uma ideia de como seria uma reversão quando o índice do dólar recuou quase 3% ao longo de duas semanas, a partir demeados de julho, já que alguns investidores apostam que a inflação dos EUA poderia ficar moderada o suficiente para permitir que o Fed tivesse espaço para se afastar de seu caminho de aumentos agressivos nas taxas de juros.

Embora dados de inflação dos EUA mais fortes do que o esperado para agosto tenham frustrado essas esperanças e feito o dólar subir, os perigos decorrentes de negociações abarrotadas com o dólar só aumentaram, disseram investidores.

"Sem dúvida, quando você tem uma negociação abarrotada, onde todos os investidores buscam a mesma coisa, quando as percepções mudam, a reação é violenta", disse Eric Leve, diretor de investimentos da empresa de gestão de patrimônio Bailard.

"Poderíamos facilmente ver um movimento de 10% a 15% para o outro lado no dólar em relação ao euro ou ao iene", disse ele.

Em 2015 e 2009, as duas últimas vezes em que o índice do dólar subiu mais de 20% durante um período de um ano, registrou queda de dois meses de 6,7% e 7,7%, respectivamente, depois de ter atingido o pico.

Catalisador de reversão

Embora o posicionamento sobrecarregado possa agravar qualquer possível reversão do dólar, seria necessária uma grande mudança fundamental para causá-la, disseram investidores.

A queda da volatilidade das taxas de juros dos EUA, a normalização dos preços da energia na Europa e a China abandonando sua política de zero Covid são três pré-requisitos para que o dólar entre em um mercado de baixa estrutural, disse Tse, do BNP.

"Quando esses três pontos estiverem confirmados, isso nos fornece mais uma pista para ver o dólar entrar em um mercado de baixa, mas não vejo isso acontecendo tão cedo", disse ele.

Embora as taxas de juros dos EUA estejam acima das de muitas outras economias, quase todos os principais bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra (BoE), aumentaram os custos dos empréstimos à medida que intensificam sua luta contra a alta inflação, ajudando a aumentar o fascínio de suas combalidas moedas.

Quaisquer sinais de que a inflação dos EUA possa estar diminuindo podem ajudar a reviver expectativas de um pivô "dovish" (estimulativo) do Fed, tirando do dólar uma força motriz crucial.

Um sério golpe nas perspectivas econômicas para os EUA também pode prejudicar o dólar, disse Jack McIntyre, gestor de portfólio da Brandywine Global.

O aperto agressivo da política monetária pelo Fed aumentou preocupações de que a economia dos EUA possa estar caminhando para uma recessão no próximo ano.

As três maiores economias do mundo --Estados Unidos, China e zona do euro-- estão desacelerando acentuadamente, e mesmo um "golpe moderado na economia global no próximo ano pode levá-las à recessão", disse o Banco Mundial em recente estudo.

"Acho que o que enfraquece o dólar é aumentar a probabilidade de os EUA entrarem em recessão, e isso não está descontado no dólar", disse McIntyre.

Mas com a moeda escalando novos picos em várias décadas, o posicionamento para um recuo pode ser doloroso. "Estamos lutando um pouco, mas está difícil", disse McIntyre.

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