O relato da reunião do COPOM que determinou a elevação da taxa SELIC de 11,00% para 11,25% colocou uma visão adicional mais drástica sobre o desafio que o governo terá que enfrentar neste segundo mandato, ao realizar um “mini raio x” prospectivo.
O Brasil precisa realizar um movimento reversivo estupendo no estado atual de sua economia para restabelecer a credibilidade e reconquistar atratividade perante os investidores, e, inquestionavelmente, precisará antes recuperá-la para depois encetar diretrizes sobre a nova base medidas focando o crescimento, o que retira a expectativa de melhora no curtíssimo/curto prazo e não pode deixar de considerar medidas duras de ajustes contrárias aos anseios imediatos.
Como desde muito vimos destacando, não há atalho entre o ruim e o bom sem que o país transite por um período de depuração da situação de deterioração em que se encontra sua economia. E este será, sem dúvida, um período de inquietação, até porque suscitará muitas dúvidas se a reversão do status amplamente negativo será efetivamente consumada.
Observem que a ATA do COPOM destaca que o cenário para inflação para este ano e 2015 piorou e continua em patamares elevados, com indicação de que entrará em convergência para a meta somente em 2016, o que deixa evidente que ocorrerão novas elevações da SELIC no período.
O documento praticamente assegura que novas altas da SELIC serão inevitáveis e que a pressão vem, em parte, dos ajustes nos preços do câmbio e administrados, que tornou o ambiente de risco para a inflação menos favorável.
E a ATA do COPOM vai mais além ao afirmar “que reconhece que esses ajustes de preços relativos têm impactos diretos sobre a inflação e reafirma sua visão de que a política monetária pode e deve conter os efeitos de segunda ordem deles decorrentes”.
Importante observar que juros altos inibem os investimentos, fator que será preponderante e fundamental para a retomada do crescimento, o que deixa evidente que necessariamente haverá um intervalo considerável entre o processo de reversão da economia deteriorada e a retomada de investimentos por parte dos nacionais e estrangeiros que poderão estimular o crescimento.
Mas quem pode garantir que as pressões no câmbio não serão maiores do que estimadas?
O setor externo tem perspectivas bastante negativas para o país, não ensejando grandes volumes de IED´s até que haja evidência de que ocorre efetiva recuperação da economia deteriorada atual para um cenário que sugira retomada do crescimento.
Numa visão de rigor, é possível admitir-se que este governo terá que dispender grande parte do seu mandato fazendo correções que implicarão em medidas amargas, e pouco tempo para realizar efetivamente ações novas que possam proporcionar ao país crescimento considerável e sustentável como ambicionado por todos.
Isto se efetivamente tiver foco na recuperação da economia brasileira. Desejar fazer ambos ao mesmo tempo, reversão e crescimento, pode trazer como resultante o insucesso.
O Brasil é potencial exportador agrícola e já há projeções de quedas de preços das commodities, em especial soja e minério, que representariam perda de receita da ordem de US$ 15,0 Bi em 2015, e não se nutre expectativa de recuperação imediata das exportações de manufaturas, cujos mercados precisarão ser recuperados num ambiente atual que indica intensa concorrência.
Temos ainda no radar a mudança da política monetária americana que ensejará mudança do juro, fato que poderá atrair os capitais em poder dos emergentes, não sendo garantido que os capitais especulativos darão preferência aos países com juros elevados em detrimento de países com menor risco, em consequência do baixo crescimento mundial.
A economia americana tem evidenciado dados de recuperação com algumas variáveis, mas nos itens relevantes relacionados com o emprego e produtividade tem respondido positivamente.
O câmbio poderá ainda causar pressões maiores do que a considerada, já que atualmente é difícil realizar-se projeções acerca do comportamento das moedas no mercado global e o Brasil detém situação que podem retardar ou diminuir os fluxos de forma ainda não bem mensurados e considerados, que poderão levar seu preço a piorar muito para posteriormente em 2016, se tudo o mais for realizado com acerto, voltar a um patamar menos comprometedor da inflação.
Tudo sugere que o preço da moeda americana, mesmo com alguma volatilidade, mantenha tendência de alta, o que poderá representar desvalorização adicional do real que impactará nas pressões inflacionárias.
O país terá que cumprir um considerável período envolvido em sua recuperação amparada em medidas até impopulares, por isso, temos destacado a necessidade maior de coesão entre o “staff” que a Presidenta Dilma definir para comandar a economia como fator mais importante do que o nome do Ministro da Fazenda.
Não há espaço para “toque de Midas” neste momento, que é absolutamente diferente dos anteriores, mas sim de trabalho de equipe coeso tendo como base programa econômico consistente para o novo período de governo e planejamento de choque severo focando o resgate da economia, sendo este para execução imediata.
Se o governo não demonstrar forte convicção na retomada da credibilidade, o preço do dólar pode ir muito além do que pode se imaginar, de imediato, ficando mais exposto ainda ao “downgrade” da nota de crédito por parte das agências de rating.